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sábado, 16 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: APRENDENDO MÚSICA COM O PROFESSOR VIEIRA E COM O PROFESSOR ALTIVO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: APRENDENDO MÚSICA COM O PROFESSOR VIEIRA E COM O PROFESSOR ALTIVO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 
 

Minha mãe trabalhava cantando, pois gostava de música, e sempre dizia que tinha vontade de ter um filho músico. Um dia chegou em nossa casa Antônio Vieira de Barros, muito amigo nosso, e me fez convite para fazer parte em um conjunto de alunos, aos quais ele estava ensinando música. Eu dizia que não estava interessado em aprender música, que a minha vida já tinha mudado, pois eu já estava casado e não podia assumir outros compromissos. Mas ele sempre insistindo comigo, que não me cobrava nada, era só duas vezes por semana de aula, o estudo era de noite. Aí, minha mãe entrou no assunto e disse-me: “– Aceita este convite. Eu sempre tive vontade que um filho meu aprendesse música e, hoje, surgiu a oportunidade”.

 

Com esse pedido que minha mãe me fez, eu comecei a estudar música, aos vinte e seis anos de idade. As aulas eram em casa do professor Vieira, em um Arraial distante, três quilômetros de distância. Era só quartas e sábados da semana, mas mesmo assim era um sacrifício, pois eu trabalhava na roça, e, quando chegava o dia de aula, mesmo cansado de puxar a enxada o dia todo, tinha que caminhar a pé três quilômetros, ida e volta.

 

No início começamos com poucos alunos, até conhecermos os valores das notas, dos espaços e cantar corretamente a escala. A maioria dos alunos era os filhos de um fazendeiro, por nome Pedro Alves, que vendo os filhos, netos e sobrinhos bem desenvolvidos no conhecimento da música interessou-se em comprar os instrumentos para todos os alunos. O professor Antônio Vieira de Barros era um homem prático em viagens, conhecia bem o Rio de Janeiro, e foram os dois, o Pedro Alves e o professor Vieira, ao Rio de Janeiro comprar instrumentos para todos os alunos.

 

Para mim trouxeram um pistom. Como eu não conseguia tocar pistom, fizemos uma troca. Um colega, que tinha ganhado um trombone, me fez proposta de trocar o trombone pelo pistom, e eu aceitei o negócio, e comecei a tocar trombone. As aulas posteriores já não eram em casa do professor, passou a ser em casa do fazendeiro Pedro Alves, que ficou entusiasmado por ver os filhos, netos e sobrinhos e empregados, todos reunidos, na mais perfeita harmonia, tocando dobrados, alguns choros e algumas valsas.

 

E, aí, algum tempo depois, Antônio Vieira de Barros, o professor, disse para Pedro Alves, e todos os filhos, e todos os alunos: “– Eu já não tenho mais recurso de conhecimento de música para ensinar vocês, é preciso contratar um mestre, que tenha mais capacidade que eu, para a continuação do ensino, e eu fico como aprendiz”. E, assim, combinaram em buscar um professor por nome Altivo, que morava em São Domingos de Abrecampos, um senhor que aparentava ter cinquenta anos de idade.

 

O senhor Altivo era muito competente para ensinar, e bem conhecedor de música, bastante enérgico com os alunos, e tocava clarinete muito bem. Mas não há bom sem defeito. A banda já estava sendo chamada para tocar em festa religiosa, em festejo político, em acompanhamento fúnebre.

 

Quando o Divino de Carangola foi promovido à categoria de cidade, tocamos também. O primeiro prefeito de Divino foi o Dr. José Tavares, um moço ainda bem jovem que veio de Belo Horizonte para comandar o município divinense. Depois de José Tavares, tocamos na festa da posse de Dr. Júlio, que foi uma grande festa, porque era uma pessoa do lugar. Não só a banda dos Alves, como era chamada a nossa banda, como também a banda dos suíços, comandada pelo senhor Petí, que era também o dono da banda, por ter os filhos e empregados todos tocando. O mestre Ludovino, um senhor mestre, muito entendido em música, à frente, tocando contrabaixo.

 

Na praça, em frente à Igreja, foi o encontro das duas bandas, disputando uma com a outra, e o povo aplaudindo. Quando uma parava de tocar, a outra entrava em cena. Isto durou de duas a três horas, depois fomos almoçar e descansar, para de noite tocar mais.

 

O defeito do professor Altivo era beber cachaça, era preciso ser vigiado pelos alunos. Aonde ele ia, disfarçando, para ver se encontrava algum botequim para beber cachaça, a turma ia todos atrás dele. Por ser um bom mestre de música, ele lecionou alguns anos. Já tendo um dos alunos que podia substituí-lo, despacharam o mestre Altivo. Ficou, em seu lugar, um dos alunos, o caçula dos irmãos Alves, dirigindo a banda. 

quinta-feira, 14 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEUS PAIS ZECA E ANTONINHA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEUS PAIS ZECA E ANTONINHA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 
 


Meu pai Zeca de Souza sempre vinha à casa de meu avô Joaquim Pereira para ver minha mãe. E, não demorou muito tempo, minha mãe foi pedida em casamento pelo meu pai. O pedido foi aceito pelo meu avô, que ainda não estava doente da cabeça, Meu avô Joaquim Pereira e minha avó Maria Brasilina, pais de minha mãe Antoninha, marcaram o casamento para o mês de janeiro de 1899, quase no final do século XIX.

 

Meu pai Zeca e minha mãe Antoninha eram casados só no eclesiástico, porque, naquela época, não existia casamento no civil. Foram pais de doze filhos, todos registrados como filhos naturais. Meu pai, por várias vezes, quis legitimar os filhos, mas minha mãe não concordava em tornar a casar. Por isso, ficamos todos como filhos naturais.

 

Meu pai tratava os filhos com muito respeito e severidade, e minha mãe não era assim tão severa. Meu pai fumava cigarro de palha de milho, mas nunca deu licença de filho fumar. Teve uma noite que ele foi ao meu quarto, quando eu já estava deitado, fumando um cigarro muito distraído. Quando ele entrou e falou comigo, eu estava com a boca cheia de fumaça, mas não adiantou nada, a fumaça saiu pelas narinas. Isto, eu já estava com vinte e um anos.

 

Já minha mãe era mais camarada com os filhos. Minha mãe também fumava, e dava cigarro aos filhos, e quando ela não tinha fumo, pedia aos filhos. Minha mãe era costureira, fazia roupa para homem e para mulher, mas o que ela gostava era de fazer roupa de homem. Tinha uma máquina Singer de sete gavetas, sendo três de cada lado e uma de frente com três repartições. Antoninha, minha mãe, tinha uma grande freguesia, vinha gente de longe trazendo pano de brim amarelo para fazer terno. Era o que se usava mais para homem. As mulheres traziam fazendas de tricoline, chita e até seda. Minha mãe tinha o maior cuidado em fazer as roupas. Primeiro tinha que molhar o pano, porque tinha pano que encolhia. Muitas das vezes, ela queria recusar algumas costuras, porque já tinha demais pra ela fazer, mas os fregueses imploravam, até que ela aceitava, mas sem compromisso. Isso era em ocasiões de festas, e, assim, ela ficava sentada em um topo de madeira roliço. O dia era pouco pra ela trabalhar, inteirava com a noite, das quatro horas da madrugada até às dez horas da noite. Fora dessas ocasiões, não tinha tanto serviço, mas ela costurava diariamente, não fazia outra coisa, até a comida ia pra ela na máquina.
 

quarta-feira, 13 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A PRIMEIRA VISITA DA FAMÍLIA SOUZA À FAMÍLIA DE JOAQUIM PEREIRA DA CUNHA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A PRIMEIRA VISITA DA FAMÍLIA SOUZA MOREIRA À FAMÍLIA DE JOAQUIM PEREIRA DA CUNHA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 

 
Sendo meu pai Zeca de Souza o filho mais velho de José Antônio de Souza Moreira, e já rapaz formado, começou a frequentar as residências dos vizinhos que tinham moças na idade de casar. Ele viu minha mãe pela primeira vez na casa de um tio dela, por nome Joaquim Alves, que era vizinho de meu avô José Antônio. Joaquim Alves era irmão de minha avó materna Maria Brasilina. Desse encontro de meu pai e minha mãe, começou o romance. A amizade entre Pereiras e Souzas ia aumentando cada vez mais, e meu avô José Antônio foi convidado para uma batucada em casa de meu outro avô Joaquim Pereira da Cunha, pai de minha mãe. Meu avô Souza aceitou o convite e veio com toda a família, e, chegando em casa de meu avô Pereira, encontrou-se com outros violeiros e a batucada começou.

 

A família Alves, composta pelos irmãos de minha avó Maria Brasilina, e a família Pereira, da parte de meu avô Joaquim, todos com os olhos fixos em meu avô Souza, violeiro e cantador, homem animado. Naquele entusiasmo, meu avô, cantando, errou um verso, mas emendou rapidamente, e cantou assim: “Este verso eu errei, eu bem sei aonde errei. No abrí fechá da boca, do meu amor alembrei”.  E dizia minha mãe que o povo, que estava apreciando meu avô Souza tocar viola e cantar, ficou acenando com a cabeça e dizendo uns para os outros: “– É!, o homem é violeiro de verdade!” E, assim, passaram aquela noite em harmonia e, ao amanhecer do dia, meu avô Souza, vovó Chiquinha e os filhos voltaram para o Sítio, aonde residia toda a família.

terça-feira, 12 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO: SITIANTE, VIOLEIRO, DANÇARINO E CANTADOR DE CATERETÊ



A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO: SITIANTE, VIOLEIRO, DANÇARINO E CANTOR DE CATERETÊ


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 
 
 

Meu avô paterno José Antônio de Souza Moreira já tinha ouvido falar na Zona da Mata, Minas Gerais, que era terra nova, terra boa para dar mantimento. Depois da briga com o cunhado, meu avô José Antônio resolveu se mudar de Laranjal para outro lugar. Como tinha um primo por nome Antônio de Souza Moreira, que tinha comprado uma Fazenda no município de Carangola, em Minas Gerais, meu avô foi até à fazenda do primo Antônio e, lá, conversando com o primo, foi informado de um Sítio que estava à venda. Meu avô foi ver o Sítio, agradou-se, e fez negócio com o dono. Esse Sítio fazia divisa com a Fazenda Cachoeira dos Pereiras, na época já dividida com os herdeiros do João Argolão, e era exatamente a parte da Fazenda que tocara por herança para um tio de minha mãe por nome Sebastião Pereira, um dos filhos do pioneiro João Pereira da Cunha, o Barba de Argolão.

 

Meu avô José Antônio voltou a Laranjal, despediu-se de sua mãe Severina e de seus irmãos, e veio para o Divino de Carangola, aonde tinha comprado o Sítio. Meu avô chegou ao Divino de Carangola, vindo de Laranjal, com vovó Chiquinha e seis filhos, sendo três homens e três mulheres. Nome dos homens: José (meu pai), João e Camilo. Nome das mulheres: Maria, Ana e Floripes. Ainda não tinha casado nenhum deles.

 

Sendo meu avô violeiro famoso, em pouco tempo estava conhecido por toda a vizinhança de sua nova residência. Meu avô José Antônio de Souza Moreira tocava e cantava moda de viola, e dançava o batuque cateretê, aprendido com os escravos quando criança, e era chamado pelos moradores da região para tocar viola, e cantar e batucar. Como ele conhecia bem o ponto da viola, não tinha receio de encontrar-se com outros violeiros, e, quando se encontravam, era aquela disputa, cada qual queria mostrar mais o que sabia.

domingo, 10 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 

 
E meu avô José Antônio de Souza Moreira foi crescendo sempre misturado aos escravos do avô dele. Com a morte de José de Souza Moreira, a Fazenda foi repartida entre os filhos. Para Severina, que era a mãe de meu avô José Antônio, o que tocou pra ela, ela deu para os filhos.

 

Meu avô José Antônio de Souza Moreira já era casado com Maria Francisca da Conceição, a vovó Chiquinha, que era descendente da família Costa. Depois que Severina repartiu a herança que recebeu entre os filhos e filhas, a parte que lhe coube da Fazenda de Laranjal, meu avô e um de seus cunhados fixaram residência em uma encosta de morro, em um lugar onde embaixo passava um córrego d’água. Meu avô tinha a sua residência um pouco abaixo do córrego d’água, e mais embaixo ainda morava o cunhado de meu avô, o que era casado com a irmã chamada Ana. Meu avô era muito trabalhador e formou uma bonita lavoura de café.

 

O cunhado de meu avô querendo fazer um moinho de pedra para moer milho, como não tinha alturas d’água suficientes, para tocar o moinho, pediu a meu avô consentimento para ele tirar água acima da casa de meu avô. Meu avô pôs algumas dúvidas, porque o cunhado teria de arrancar alguns pés de café preciosos do cafezal de meu avô, para construir o rego d’água até o dito moinho, mas, por fim, concordou.

 

O cunhado fez o rego d’água passando acima da casa de meu avô paterno, mas, no decorrer do tempo, a água arrombava a rampa e descia, arrancando pés de café, e prejudicando até em casa de meu avô. Meu avô falava com o cunhado, mas não adiantava nada. Esse cunhado era um homem preguiçoso, desmazelado, e não se incomodava com o prejuízo que causava a outras pessoas. Meu avô já estava a ponto de fazer uma desordem, e falou com a mãe Severina: “– Mãe, já não aguento mais esse seu genro! É muito abusado. Mas, comigo, ele se engana, vou tacar nele uma facada, que ele nunca mais vai aborrecer ninguém!” Severina, que era mãe e sogra, não deixou que eles brigassem. Apaziguou os dois, mas, meu avô José Antônio não ficou satisfeito, vendeu tudo o que tinha e saiu para procurar outra propriedade.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU TATARAVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO MOREIRA, UM BONDOSO SINHÔ DE ESCRAVOS EM LARANJAL NO SÉCULO XIX


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU TATARAVÔ PATERNO JOSÉ DE SOUZA MOREIRA, UM BONDOSO SINHÔ DE ESCRAVOS EM LARANJAL NO SÉCULO XIX


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 
 

 

 

Sobre o meu pai, José de Souza Costa, ele era filho de José Antônio de Souza Moreira. Meu avô José Antônio era natural de Laranjal, Minas Gerais, e fora criado com o avô dele por nome José de Souza Moreira. Isto porque o pai de meu avô José Antônio de Souza Moreira morreu ainda moço, e minha bisavó paterna, por nome Severina, ficara viúva com sete filhos menores. Com a morte do genro, que também se chamava José, o pai de Severina levou-a pra Fazenda, em Laranjal, para ajudá-la a criar os filhos.

 

Dos filhos de minha avó-bis Severina, vovô José Antônio de Souza Moreira era o mais velho. Nome dos homens: José Antônio, João e Antônio. Nome das mulheres: Maria do Santo (ou Dussanto), Ana, Altina e Severina.

 

José de Souza Moreira, o velho (o meu tataravô), tinha uma grande Fazenda em Laranjal, e tinha também muitos escravos. Meu avô José Antônio de Souza Moreira, ainda menino, não tendo juízo, vivia mais junto com os escravos e, quando chegava a noite, meu avô reunia-se com os escravos e ia roubar, na Fazenda, tudo de bom para comer e beber, até bebida alcoólica eles roubavam. E, assim, eles se divertiam a noite inteira, mas, quando chegava o outro dia, o velho Sinhô José de Souza Moreira dava por falta de tudo, e chamava todos à ordem.

 

O meu tataravô José de Souza Moreira, Sinhô de uma antiga grande Fazenda em Laranjal, não tinha feitor para tomar conta dos escravos. Os escravos dele, sabendo que não seriam punidos, abusavam. O meu tataravô prometia a eles punição, dizendo assim: “– Cambada de dumônios, eu vou chamar o feitor do compadre Juca Moreira para exemplar ocês!” Dizia meu avô José Antônio que os escravos choravam, pediam perdão, implorando: “– Nhô-nhô, não faiz isto!, nóis promete a Nhô-nhô que nunca mais nóis faiz isto!” O velho José de Sousa Moreira, bastante nervoso, dizia pra eles: “– Esta não é a primeira vez que ocês fazem este juramento, mas eu vou deixar passar por esta vez, mas não caiam noutra!”

 

Assim, segundo o que nos contava o meu avô José Antônio, era o natural bondoso de meu tataravô paterno José de Souza Moreira, Sinhô de escravos em Laranjal, Minas Gerais, no século XIX.
 

terça-feira, 5 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RETOMANDO A HISTÓRIA DO PIONEIRO JOÃO PEREIRA BARBA DE ARGOLÃO E DESCENDENTES


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RETOMANDO A HISTÓRIA DO PIONEIRO JOÃO PEREIRA BARBA DE ARGOLÃO E DESCENDENTES

 
ANTÔNIO DE SOUSA COSTA





 

Voltando à família de João Pereira da Cunha, vulgo Barba de Argolão, o primeiro Sinhô da Fazenda Cachoeira dos Pereiras, em Divino, Minas Gerais. Minha mãe Antoninha, neta do João Argolão, sempre falava em uma tia, por nome Lourença, que era casada com João Pereira, filho de João Argolão. Dizia minha mãe que tia Lourença era cantora de Igreja, e que tinha a voz bem afinada. Tia Lourença, quando ia para a Igreja, levava também minha mãe, e sempre a incentivando com elogios, dizendo que minha mãe tinha boa voz. Minha mãe ainda era menina quando começou a cantar em Igreja, junto com tia Lourença e tio João Pereira Filho.

 

Havia dois Arraiais nas vizinhanças que faziam festa de mês de Maria, festa de São Sebastião e festa de Santo Antônio. O mais próximo tinha por nome Choro [lugar atualmente conhecido pelo nome de Santo Antônio do Arrozal], o outro tinha por nome Indaiá. Tio João Pereira Filho e tia Lourença eram contratados para rezar e cantar, sempre que havia festa nos dois Arraiais. Tia Lourença, quando ia cantar na Igreja, levava minha mãe Antoninha, e, as duas, fizeram uma dupla famosa. Tia Lourença já não cantava em Igreja sem minha mãe. Só tratava de rezar se minha mãe Antoninha ajudasse na cantoria. E, assim, por muitos anos, a dupla tia e sobrinha, cantaram, não só em igrejas, mas também em casas de parentes e amigos da família.

 

Mas tudo o que é bom, dura pouco. Tio João Pereira Filho resolveu mudar-se para Ponte Nova, deixando minha mãe na saudade. Minha mãe, nessa época, já estava moça solteira e, como gostava de cantar ladainha e rezar o terço, mesmo sem a presença de tia Lourença, era chamada para rezar em casas de parentes e amigos da família, e sempre tinha alguém que a ajudava a cantar. Isso continuou por algum tempo, até que apareceu meu pai Zeca de Souza, que viera, com os pais, de Laranjal, município de Cataguases, em Minas Gerais, para morar em um Sítio localizado no Choro.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CARRO DE BOIS DE MEU PAI ZECA DE SOUZA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CARRO DE BOIS DE MEU PAI ZECA DE SOUZA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 

 


 


Meu pai Zeca de Sousa tinha carro de bois, mas não era carreiro. Quem trabalhava como carreiro era Antônio Pedro de Oliveira, casado com uma irmã de minha mãe, a minha tia Corina. Antônio tinha o apelido de Carabineiro, Antônio Carabineiro, mas, não era um bom carreiro, porque batia nos bois inconscientemente, não tinha noção do que estava fazendo. O boi que não merecia apanhar, nesse é que ele batia mais e com mais força. Sendo eu o candeeiro que guiava os bois, observava o quanto ele maltratava os nossos bois. Eu sempre avisava a meu pai, mas ele não acreditava em mim. Pensava que eu dizia aquilo por despeito, porque eu reclamava com meu pai que o Antônio Carabineiro me humilhava perto de outras pessoas. Ele me maltratava com gritos, mas era só quando chegava perto de outros carreiros, dando ferroada naqueles bois que não gostavam de apanhar, e dava berros e berros, e tinha outros defeitos mais. Eu, vendo aquilo tudo de errado, não era autorizado a falar nada.

 

Mas, um dia, meu pai viu com seus próprios olhos. Meu pai tinha feito uma mudança de residência provisória. Deixou a nossa casa, com um dos irmãos tomando conta, e mudou-se para a Fazenda de Jove de Souza, aonde ele tocava uma lavoura de café à meia com o fazendeiro. Nós tínhamos também lavoura de café, mas era pequena. Como meu pai já tinha dois filhos já rapazes, e tinha também dois empregados, achou que era um bom negócio ter mais café para vender. E, assim, ele ficou morando provisoriamente em uma tulha da Fazenda de Jove de Souza. E o Carabineiro, em nossa propriedade, agia como se fosse o dono do carro.

 

Um dia, o Antônio Carabineiro e eu, que o ajudava como candeeiro dos bois, fomos buscar uma mudança em um lugar bem longe de nosso lugarejo. Tivemos de viajar três dias com o carro de bois de meu pai. Saímos do nosso Sítio e caminhamos até chegar aonde íamos apanhar a tal mudança. No outro dia, retornamos com o carro carregado e viemos até a Fazenda do Jove de Souza, onde meu pai estava morando provisoriamente. Soltamos os bois e permanecemos até o outro dia. De manhã cedo, nós pegamos os bois, para seguirmos até a entrega da mudança. Mas, meu pai deu-lhe uma ordem. Sendo o Antônio Carabineiro padrinho de uma das minhas irmãs, meu pai chamava ele de compadre, e disse pra ele: “– Compadre Antônio, quando chegar lá em casa, ocê solta os bois, que é pra eles descansar, beber água, depois, ocê pega os bois e vai fazer a entrega da mudança”. Nós nos despedimos e seguimos com o carro cantarolando, caminhando estrada a fora.

 

Mas, quando chegamos em nosso Sítio, o Antônio Carabineiro não obedeceu à ordem de meu pai e passou direto. Isto era meio-dia, com o sol quente. Os bois estavam acostumados a chegar ali e serem soltos, e já não queriam andar. Pouco à frente, tinha um morro para subir. No início do morro tinha uma mina de água que formava um atoleiro. Chegamos ao pé do morro e o carro atolou. Os bois já cansados, e por terem passado onde eles estavam acostumados a serem soltos, não quiseram puxar o carro. Carabineiro parecia até que estava louco. Começou a dar pregada nos bois, com a guiada, até ficarem, todos, ensanguentados. Depois começou a dar com o pé da guiada no focinho dos bois, até os bois caírem no chão. Era uma junta de bois de guia de muito valor, e ficaram com os focinhos esbagaçados.

 

Mas, por azar do Carabineiro, meu pai estava chegando e, quando o meu pai viu os bois todos quase mortos, e a junta de bois de guia deitada no chão, sem força nem para levantar, quase ficou louco. Meu pai maltratou ele com nome ruim, de toda espécie. Nesse momento, veio chegando um amigo do Carabineiro, e quis dar razão a ele. Mas, meu pai estava em estado perigoso e desafiou todos os dois, mas, nenhum resolveu nada contra meu pai. Então, meu pai disse ao Antônio Carabineiro, que era carreiro nosso já há vários anos: “– Larga meu carro e vai embora! Não quero ocê nem mais um dia pra ser meu carreiro!” O Carabineiro humilhou-se, e disse a meu pai: “– Eu vou ajudar a descarregar o carro. Depois de vazio, agente encosta ele ali no terreiro do Marcolino. Eu carrego a mudança e coloco dentro do carro e, depois, eu vou embora”. Meu pai aceitou.

 

Depois que descarregaram o carro, mesmo vazio, os bois não queriam subir o primeiro tope do morro. Mas conseguimos encostar o carro no terreiro de tio Marcolino. Depois, ele carregou a mudança nas costas, com a ajuda de mais alguns que ali chegaram. Encheu o carro novamente. E o Antônio Carabineiro foi embora. No outro dia, meu pai disse para mim, que já estava com quinze anos: "– De hoje em diante, meu filho, ocê é o meu carreiro!”

 

Assim, eu comecei a carrear para meu pai aos quinze anos de idade. Ainda não tinha força para carregar sessenta quilos, mas o meu pai acompanhava o carro e me ajudava carregar o carro. Carreei até os vinte e três anos, depois, deixei de carrear, para fazer outros serviços. Os dois bois de guia, com o passar do tempo, não prestavam mais pra serviço e foram emagrecendo até morrerem.

domingo, 3 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU PAI ZECA DE SOUSA E A CAÇADA ASSOMBRADA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU PAI ZECA DE SOUSA E A CAÇADA ASSOMBRADA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 

 
 
 

Meu pai, José de Sousa Costa, que tinha apelido de Zeca de Sousa, casado com Antoninha, que era filha de Joaquim Pereira e neta de João Pereira da Cunha, vulgo Barba de Argolão, o Zeca, meu pai, também, era caçador de paca e caititu. Ele se reunia com o cunhado Sebastião Pereira Sobrinho e, todos os domingos, iam caçar. Mas teve um domingo que eles tiveram a maior decepção.

 

Havia missa no Arraial e, naquele tempo, ninguém faltava com sua presença na Igreja. O padre vinha de longe. Era de mês em mês que tinha missa no Arraial. Meu pai e tio Bastião Pereira deixaram de ir à missa, para irem caçar paca. Reuniram-se na casa de meu pai, na manhã de domingo bem cedo, tomaram café, fizeram uma refeição matinal bem reforçada, deram comida aos cachorros, e foram caçar, sem nem se preocupar com o dever de ir à missa. Todos da família foram à missa, que era marcada para as dez horas do dia.

 

Meu pai e tio Bastião Pereira chegaram no mato, soltaram os cachorros, e ficaram na beira do rio, pouco acima da cachoeira, e começaram a buzinar para os cachorros saírem em busca das caças. Não levava nem meia hora e os cachorros traziam pacas de todos os lados, e eles dando tiros, mas, não acertavam em nenhuma delas. Os cachorros novos, que nunca tinha levantado paca, naquele dia de domingo, que eles deixaram de ir à missa para irem caçar, achavam paca em qualquer lugar. Dizia meu pai e tio Bastião que as pacas vinham roncando no gogó, e eles dando tiros, e eles não mataram nenhuma. Diziam eles que as pacas passavam até debaixo de suas pernas; até que eles caíram em si, e tio Bastião disse para meu pai: “– Compadre Zeca, vamos embora para casa, isso não é paca não, isso é o capeta que tá em figura de paca”.

 

Eles vieram pra casa muito assombrados com aquele acontecimento, que houve na caçada de domingo. Eles não deixaram de caçar, mas só caçavam dia de sábado. Com esse acontecimento, que houve na caçada de domingo, meu pai ficou desinfluente com caçada e foi deixando de caçar, aos poucos, até que deixou de tudo. Mas, o tio Bastião Pereira não deixou. Se não tivesse companheiro, ele ia até sozinho; sempre que tivesse um tempo, tio Bastião Pereira ia caçar com seus cachorros.

sábado, 2 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A QUINTA-FEIRA DE JUDAS E O ROUBO DO CARRO DE BOIS


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A QUINTA-FEIRA DE JUDAS E O ROUBO DO CARRO DE BOIS


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA



 

 

 
Tio Sebastião Pereira era muito amigo de meu pai Zeca de Sousa. Ele não passava, nem um dia sequer, sem ir a nossa casa. Ele tinha um sestro. De quando em quando, ele rusnia, limpando a garganta. Era sempre assim: quando ele chegava no início do nosso terreiro, ele já vinha limpando a garganta, até entrar dentro de casa. Meu pai dava a ele toda atenção. Quando meu pai estava em dificuldade, por qualquer motivo, podia contar com ele.

 

Eu me recordo de uma noite de quinta para sexta-feira, vésperas de sábado de Aleluia, em que o povo gostava de fazer bagunça, fazendo quinta de Judas, roubando tudo que encontrava, fosse o que fosse. Tendo meu pai carro de bois, vieram à meia-noite pra roubar o carro de meu pai. Quando os bagunceiros estavam tirando o carro da coberta, que era uma meia-água nos fundos da casa, eles fizeram muito barulho. Nos fundos da casa, tinha um quarto, no qual estava o meu irmão por nome Eurico, que estava dormindo, mas acordou com o barulho que fizeram para tirar o carro, e meu irmão chamou por meu pai: “– Zeca, estão roubando o carro!”

 

Meu pai acordou e passou a mão na arma de fogo e correu atrás deles. Parecia que o Judas ajudava a eles, pois tinha uma ladeira bem a pique, que lá em Minas Gerais chama-se morro, pois os arruaceiros subiram correndo, puxando o carro à mão, mas, meu pai também correu atrás deles, e, quando chegou no alto do morro, meu pai disparou muitos tiros pra cima deles, justamente quando eles estavam em frente à casa de tio Bastião Pereira.

 

Eles, com medo de serem atingidos por chumbo, deixaram o carro no meio da estrada, e correram, espalhando-se pelo pasto. E meu pai chegou, sentou no cabeção do carro, e gritou: “– Vocês, podem até me matar, mas meu carro não vai pra quinta de Judas não!” E, nesse justo momento, tio Bastião Pereira já estava ao lado de meu pai, esperando que eles voltassem para levar o carro.

 

Era bastante gente que estava puxando o carro, alguns eram até parentes, mas tinham outros, estranhos, de outras terras, e eram metidos a valentes. Os que eram parentes não disseram nada, pois reconheceram o erro, mas os que eram estranhos, disseram: “– O carro vai!, de qualquer maneira”. Meu pai disse: “– Então, pega! Aquele que se aventurar a pegar no meu carro, eu mando fogo!” E meu tio Bastião Pereira também gritou: “– Aquele que for valente pega o carro, e vê se sai com ele!”

 

Mas, eles vendo a coragem de meu pai, e meu pai de costa quente com tio Bastião, eles resolveram a deixar de levar o carro. Voltaram com o carro e o puseram no mesmo lugar que tinham tirado.

 

O nome completo de tio Bastião era Sebastião Pereira Sobrinho. Tio Bastião não era homem de brigar por qualquer coisa, mas não tinha medo. Se medo fosse fruta, ele não lambia nem a casca. Ele não carregava arma de fogo, confiava na força que tinha. Além de ser um homem alto, era também musculoso. Tio Bastião era chamado por todos que o conheciam de Bastião Grande. Sempre amigo de todos, mas não carregava desaforo pra casa. Ele não era muito certo com os compromissos. Às vezes, faltava com alguns de seus compromissos.

 

Teve uma vez que o Tio Bastião tomou um dinheiro emprestado, de um homem por nome Virgílio Franquelim, com o trato, quando vendesse o café, de pagar a conta, mas descuidou-se de pagar. Virgílio era um homem muito respeitado por sua valentia. Virgílio não procurou ele para receber a conta, mas ficou esperando ele passar na estrada, que passava perto de sua casa.

 

Um certo dia, tio Bastião precisou ir ao Arraial, para fazer algumas compras, e, quando passava em frente à casa de Virgílio, foi cercado por ele, e, aí, começou a discussão. Ele dando algumas desculpas, mas, Virgílio não quis aceitá-las, e disse pra o tio Bastião: “– Eu vou te dar uma coça de grungunha. Grungunha era um cipó caboclo, e Virgílio Franquelim já estava acostumado a bater em homens. Mas, quando o Virgílio levantou a braço, com o cipó na mão, tio Bastião não arredou sequer um passo, e sempre dizendo: “– Bate!” E Virgílio não bateu. Virgílio não queria matá-lo, só queria dar-lhe uma coça de cipó, mas não teve coragem de bater; olhou bem o tamanho de tio Bastião e pensou: “Se este homem me pegar, ele me amassa todo”, e, assim, resolveu deixar tudo como estava antes, e tio Bastião Pereira seguiu o seu caminho.

 

Essa encrenca que houve entre Virgílio Franquelim e tio Bastião, o próprio Virgílio contava, até com graça, pois Virgílio era amigo da família. Um dia, Virgílio veio à nossa casa e, conversando com meu pai, contou este caso a meu pai, até sorrindo. E deixa estar que o Virgílio Franquelim era um homem muito brabo.

 

Virgílio era também muito amigo de um irmão de tio Bastião, por nome Luiz, que era conhecido por Luizinho Pereira, também meu tio. Virgílio e tio Luizinho se consideravam quase irmãos. Tio Luizinho era um homem de altura média, não era musculoso como o irmão Bastião. Por esse motivo, não trabalhava em serviço pesado. Vivia mais era negociando, comprando e vendendo, barganhando cavalo e outros animais; era o que gostava de fazer. Em casa ficava, com os filhos, na luta de todo serviço, mas, tinha também empregados para ajudar na lavoura de café, plantações de milho, feijão, arroz, mandioca e outras plantas. Mas, no tempo da colheita, colhia todos os cereais, depois o café e, por último, era fazer farinha de mandioca.

 

Tio Luizinho Pereira era muito amigo de meu pai Zeca de Sousa, pois era casado com uma irmã de meu pai, e era ele também irmão de minha mãe Antoninha. Sempre que passava perto de nossa casa, ele chegava. Um dia, ele fez convite a meu pai para uma compra de gados em sociedade. Meu pai Zeca de Sousa aceitou o convite, e foram os dois para fazer a compra de gados. Foram até a Fazenda de um parente de meu pai, por nome José de Souza Moreira. Chegando lá, fizeram o negócio; compraram garrote mestiço e, também, garrote criollo, e voltaram, tocando os garrotes. Quando chegaram em nossa casa, tio Luizinho Pereira fez uma proposta a meu pai: “– Compadre Zeca, ocê precisa de bois pra puxar carro, eu quero boi pra negócio; ocê fica com os garrotes criollo, eu fico com os garrotes mestiço”. Com essa proposta, tio Luizinho saía ganhando mais. Por ser cunhado, pelos dois lados da família, e compadre, e amigo, ficou por isso mesmo, sem volta, sendo uma coisa pela outra.