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sexta-feira, 19 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA E O CASO DA CAÇADA DO ÍNDIO-PURI


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ PATERNO JOSÉ ANTÔNIO DE SOUZA MOREIRA E O CASO DA CAÇADA DO ÍNDIO-PURI


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 
Crédito da gravura para:

 

Vovô José Antônio de Souza Moreira contava, também, sobre os índios do mato da região Leste do Brasil. Mas, vovô, ao invés de falar índio, falava puri.

 

Dizia vovô que o puri, quando jogava uma flecha num pássaro empoleirado naquelas árvores bem altas, e a flecha caía em um lugar difícil de encontrar, o puri saía procurando o pássaro morto, mas não o achava. Ele então voltava, naquele mesmo lugar, e jogava outra flecha na mesma direção, e ficava observando aonde ela caía. E, chegando aonde caíra a segunda flecha, o índio puri encontrava a primeira flecha perdida fincada no pássaro.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOSÉ ANTÔNIO E A TRAVESSIA DA MATA CERRADA ESPANTANDO ONÇA-TIGRE PINTADA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOSÉ ANTÔNIO E A TRAVESSIA DA MATA CERRADA ESPANTANDO ONÇA-TIGRE PINTADA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

Vovô contava, também, sobre uma parte de mata cerrada, que tinha onça-tigre pintada. Essa mata ficava próxima à casa de vovô, em Laranjal. Ele e sua família tinham que passar dentro daquela mata, para irem até à casa de uma das irmãs de vovô, que morava do outro lado da mata. Algumas vezes até trabalhavam, vovô e os filhos, para o cunhado e a irmã, em suas lavouras de café e cereais. (Na roça, usa-se, acho que até hoje, trocar dias de trabalho uns com os outros).

 

Pois muito bem, depois da visita, ou se fosse depois do trabalho, quando chegava a noite, na volta para casa, era preciso arrastar pelo caminho uma taquara com as folhas, para evitar que a onça-tigre pegasse aquele que viesse atrás, por último. Isto porque não havia estrada larga, era apenas um trilho no meio da mata, aonde eles tinham que passar.

 

Vovô contava que aquele último, que vinha atrás puxando a taquara com folhas para proteger os da frente, sentia as unhas da onça arranhando a taquara. O arrastar das folhas da taquara produzia uma chieira [barulho] nas folhas secas do caminho, e a onça se entretinha, brincando com a taquara, e, assim, ela não pegava nenhum deles.

 

Era sempre assim: naquele tempo de vovô José Antônio, para atravessar aquela mata cerrada do Município de Laranjal, durante a noite, o companheiro de trás arrastava uma taquara com as folhas, para evitar ser refeição de onça.


terça-feira, 16 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MINHA IRMÃ MARIA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MINHA IRMÃ MARIA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

No ano de 1919, meu pai Zeca de Souza fez o casamento da primeira filha, por nome Maria. Era ainda menor de idade, porque não tinha completado dezesseis anos, mas, já era moça formada. Como era de boa aparência, tinha muitos pretendentes. Mas, naquela época, não era a moça que escolhia o namorado, mas, sim, era o pai que escolhia o pretendente de sua filha. Isto acontecia em quase todas as famílias. Poucas famílias deixavam as filhas escolherem os namorados. Maria, minha irmã, foi pedida em casamento por um moço por nome Felismino Alves Portes. Como, naquela época, eu tinha apenas nove anos de idade, não sei se Maria namorava assiduamente Felismino, mas, também, a moça daquela época, não precisava namorar, para se casar, porque eram os pais que davam o sim. Como Felismino era um moço jovem, de vinte e um a vinte dois anos de idade, muito trabalhador, filho de um primo de minha mãe, por nome Pedro Alves da Silva, e era também compadre de meus pais, e de grande consideração, o pedido de casamento foi aceito. O casamento foi marcado com pouco tempo de prazo. Meu pai tinha algum recurso, mas nunca teve dinheiro disponível, para tratar de um assunto como esse. Tínhamos um canavial bem grande, de cana madura no ponto de moer. Nós tínhamos, também, um engenho de madeira, mas o nosso engenho não era suficiente para desenvolver a moagem da cana com rapidez. Pouco abaixo da Cachoeira, distante três quilômetros mais ou menos, na Fazenda de tio Bastião Alves, tinha engenho de ferro, movido a água. Meu pai foi até a casa de Ramiro, um dos filhos de tio Bastião Alves, e ofereceu a cana a Ramiro, para moer a meia. E assim eles combinaram, que a moagem da cana tinha de ser mais rápida, porque era para fazer o casamento de Maria (que tinha sido pedida em casamento por Felismino, que era sobrinho de Ramiro). Naquela mesma semana, começou a moagem da cana. Nessa época, meu pai tinha dois filhos já rapazes, o Olavo e o Álvaro. E tinha dois ainda menores, que era eu, Antônio, e meu irmão Eurico. Papai tinha também dois empregados, que trabalhavam diariamente para nós, o Sebastião Rodrigues e o João Lopes. Meu pai ainda arranjou mais alguns ajudantes, pois precisava, com urgência, de dinheiro, para as despesas de compras de enxoval, e roupas para a família, e mais outras despesas de comestíveis, porque, naquela época, quando um pai ia fazer o casamento de uma filha, toda a vizinhança era convidada. E todos faziam questão de estar presente naquele dia. Até mesmo alguns, que não eram convidados para as festas de casamento, vinham meio disfarçados, mas não deixavam de comparecer. Os que não eram convidados, chegavam mais tarde, e ficavam meio afastados, até que o dono da casa, ou um filho, chamasse: “– Chega pra cá!” Nessa hora, todos os convidados já tinham comido fartamente, mas as mesas ainda estavam armadas no terreiro e, até à noite, a mesa era reformada com comidas e doces. Nessa época, meu pai ainda trabalhava na roça. Meu pai botou a turma toda no canavial, a cortar cana, ele também junto. Ramiro tinha o seu carro de bois, mas, arranjou outro carro. Eram dois carros, com duas juntas de bois, a puxar cana para o engenho até quatro horas da tarde. O engenho rodava, moendo cana e enchendo os cochos de garapa. O fabrico da rapadura ia até às dez horas da noite, e, assim, em poucos dias, o senhor Ramiro Alves moeu toda a cana do nosso canavial. Meu pai foi ao Divino do Carangola, vendeu a rapadura, e conseguiu arranjar o dinheiro que precisava para toda a despesa do casamento da primeira filha.

 

Quando chegou o prazo marcado, para o enlace matrimonial de sua primeira filha, meu pai já estava com o dinheiro necessário e não ficou com dívidas. O casamento foi realizado na Matriz de Divino de Carangola. Para o acompanhamento, foram todos os convidados a cavalo (o que era um sinal de riqueza). A chegada, na Fazenda de meu pai, foi com muitos fogos-de-artifício, principalmente, aqueles foguetes-de-cauda. À frente, vinha o fogueteiro, soltando foguetes. No terreiro de nossa casa também um fogueteiro, soltando foguetes. Com o barulho, alguns cavalos se espantavam, ainda com os cavaleiros montados em cima e riscando as esporas nos cavalos. Tinha arcos de bambus com enfeitos de bandeirinhas de papel amarrados nos arcos, de distância de cinquenta metros até a porta da sala. Os noivos foram recebidos com flores desfolhadas (pétalas de rosas miúdas, margarida, bem-me-quer, moça-velha, flores de todas as espécies, que tinham muitas nos canteiros que rodeavam a nossa casa). Jogar flores nos noivos era o que se usava na época. Eu era ainda bem criança, mas lembro-me que foi uma festa muito bonita, com muita gente, que não cabia dentro da casa, espalhada pelo terreiro. No terreiro, foi fincada a mesa, para todos os convidados jantarem à vontade, e com sobremesa de doces de diversas qualidades. Assim que chegou a noite, houve o baile, para todos se divertirem, na mais perfeita ordem, até o dia clarear. E assim foi o casamento de Maria, a mais velha de minhas irmãs, que contava apenas dezesseis anos ao casar.

 

Meu cunhado Felismino já tinha casa para morar. Havia uma casa desocupada, perto da residência de seu pai, aonde ele iria morar, mas, como ainda não estava tudo organizado, ele passou os primeiros dias de núpcias em nossa casa. Ele trabalhava nas terras de seu pai, e, todos os dias, ele saía de manhã e voltava à tarde.

 

Naquela época, havia dois partidos políticos. Eu não sei se era por brincadeira de meu pai com o seu primeiro genro, ou se era de verdade, mas, todas as noites, os dois discutiam, em brincadeira, sobre política. Meu pai era do partido Quati e Felismino, do partido Tatu. Meu pai dizia para o genro: “– Nesta eleição, o Quati ganha!”, e Felismino dizia: “– Não!, Zeca, quem vai ganhá é o Tatu!” E os dois ficavam naquela brincadeira, horas e horas, discutindo sobre política. Eu, naquele tempo, como não entendia nada de política, ficava pensando o que seria aquilo? Um dizia: “– Quem vai ganhar é o Quati!” O outro já dizia o contrário: “– Quem vai ganhar é o Tatu!” E digo francamente: até hoje, já passados sessenta e cinco anos, eu nunca fiquei sabendo se na década de 1910 a 1920 existiu esses dois partidos políticos, Quati e Tatu. Se existiu esses dois partidos, Quati e Tatu, foi antes dos partidos Legião e Bernardista, porque, desses, eu me lembro bem.

 

Eu me lembro dos partidos Legião e Bernardista, porque, quando fiz vinte anos, fui chamado para ir até a Fazenda Rochedo, que naquela época pertencia ao Capitão Francisco Victor da Silva, chefe político da região. O capitão Francisco Victor da Silva era conhecido por Capitão Chico Victor. Chegando lá, na Fazenda Rochedo, apresentei-me ao Capitão e disse-lhe: “– O que o senhor desejaria comigo?” O capitão olhou pra mim e disse-me: “– Quantos anos tem?” Eu respondi: “– Vinte anos!” O capitão tinha um sésto de falar “já viu”. Então, ele disse: “– Já viu!, para ser eleitor, ocê falta um ano, mas não faz mal!, eu vou aumentar um ano na sua idade. Ocê sabe escrever?” Eu respondi: “– Escrevo mal, mas escrevo!” Ele apanhou uma folha de papel almaço, e colocou em uma mesa, e disse pra mim: “– Eu vou ditando, ocê vai escrevendo!” E, assim, eu fiz o requerimento ao Senhor Juiz Eleitoral, e, quando terminei de escrever, ele elogiou a minha caligrafia, e disse: “– Já viu!, ocê tem boa caligrafia! De hoje em diante, ocê é meu eleitor!” Isto foi em 1930.

 

Essa foi a primeira eleição da qual participei. Votei em Alto-Carangola, um Arraial pequeno. O candidato à Presidência da República era Júlio Prestes. Na época, eu não tinha o mínimo interesse em candidato nenhum. Votei com a cédula que me deram (o que era muito comum, naquela época, em minha região). Eu sabia que estava votando em Júlio Prestes, que era o candidato do Capitão Chico Victor. Foi um dia de muita euforia, para os eleitores fanáticos, mas, para mim, foi uma festa como outra qualquer. À tarde, quando tudo tinha já acabado, eu voltei pra casa, e já de noite, nem mais pensei na eleição de Alto-Carangola. Mas, no decorrer de alguns dias, correu a notícia, que Júlio Prestes tinha ganhado a eleição, mas que não deixaram ele tomar posse. E logo começou a Revolução de Trinta.

 

Depois da Revolução de Trinta, o partido da oposição saiu vencedor. Era o partido de Getúlio Vargas e Arthur Bernardes (Partido Bernardista). Júlio Prestes e seus companheiros foram obrigados a deixar a Pátria, e viver na Europa. Com essa reviravolta de política, o Capitão Chico Victor e seus filhos sofreram algumas humilhações, pois os contrários, do outro partido, ficaram graúdos, porque eram da política de Arthur Bernardes, o qual (juntamente com Getúlio Vargas) saiu vitorioso na Revolução de Trinta.

 

Mas, essa união dos dois estadistas, o Arthur Bernardes e o Getúlio Vargas, não durou muito. Eles se desentenderam, e Getúlio Vargas, sendo o mais esperto, ficou mandando sozinho. Getúlio Vargas, sabendo que o outro partido era o mais forte, abraçou-se com ele e chutou o Arthur Bernardes, com todos os seus eleitores.

 

O Brasil precisa ter Partido de direita e Partido de esquerda, porque, quando um Partido está mandando, o outro está fiscalizando. Mas, o melhor de tudo seria se ninguém precisasse fiscalizar. Mas, isto não acontece, porque nem todos têm boa intenção. O que eu acho pior, na política, é a vingança. Quando um partido está mandando, os homens deveriam pensar que, um dia é da caça, o outro, é do caçador. Se hoje um Partido está por cima, amanhã poderá estar por baixo. Deviam saber ganhar, e saber perder, e viver em harmonia uns com os outros. Seria tão bom se assim fosse! Mesmo sabendo que a política é inevitável, eu a detesto. Como brasileiro e patriótico, dou o meu voto, porque é o meu dever, mas, não tenho candidato preferido.

sábado, 13 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU TIO DÉCO PEREIRA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU TIO DÉCO PEREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

Voltando aos casos da família de meu avô Joaquim Pereira da Cunha, no período compreendido entre 1920 a 1933. Um dos filhos de Joaquim Pereira da Cunha, por nome Raimundo Pereira, que tinha por apelido Déco, era casado com uma prima, por nome Antoninha, filha de Antônio Acácio Pereira e de Francisca Alves Pereira. (O Déco era meu tio, irmão de minha mãe Antoninha). O tio Déco Pereira era um homem de altura mediana, franzino de corpo, não tinha a musculatura igual a alguns de seus irmãos, mas, era um homem de uma força extraordinária, de fazer os seus colegas ficar admirados, como, por exemplo, um de nome Ramiro, que era primo dele, quase da mesma idade. Os dois trabalhavam sempre juntos, ora em carro de bois, ora em carpintaria. Eram mesmo como dois irmãos.

 

Naquela época, em dia de festa religiosa, ou em festa de casamento, o assunto dos homens era só sobre negócios, ou trabalho de qualquer espécie, ou sobre as pessoas de mais capacidades para o trabalho, ou de mais força, enfim, era uma espécie de falatório da vida alheia. E enquanto isso, eu, ainda com pouca idade, fazia as minhas observações.

 

E, em uma festa de casamento, sendo eu ainda menino com a idade de treze anos mais ou menos, escutei Ramiro, que estava com mais uns seis a oito homens, conversando sobre homens de muita força física. Eu apreciei Ramiro, contando aos demais, sobre a força física de tio Déco. Ele dizia: “– Quem vê o físico de Déco, nunca póde imaginá a força que naqueles braços finos” (comentando sobre uma casa que eles estavam fazendo). Dizia Ramiro que, uma viga de madeira lavrada, que precisava duas pessoas para levantar de um lado, para encaixar na esquina da casa que eles estavam construindo, o Déco, com aqueles braços finos, levantava, só com um dos braços. O assunto continuou quase a noite toda, sobre o Déco. Dizia Ramiro que, o Déco, em tudo que ia fazer, fazia com diligência. Tanto como carpinteiro, como carreiro, ou na roça: o Déco era pra todo serviço. Hoje, eu também posso afirmar a força e competência de tio Raimundo Pereira, que nós, sobrinhos, tratávamos de tio Déco.

 

Tio Déco era um homem brincalhão, sempre com um sorriso estampado na boca, como nos olhos. Eu tenho uma recordação do tio Déco, sobre um casamento de uma de minhas primas, por nome Geraldina, a primeira filha de tio João de Souza (meu tio pelo lado paterno), que era casado com Cotinha (uma das filhas de Antoninha Pereira, que, por sua vez, era filha de João Argolão, meu bisavô pelo lado materno).

 

Antoninha vendeu a sua propriedade em Cachoeira dos Pereiras e comprou um Sítio na cabeceira de um ribeirãozinho localizado próximo a um Arraial denominado como São João do Norte, pertencente ao Município de Divino de Carangola. E Antoninha Pereira levou também tio João de Souza (seu genro) com a família. O lugar era um alto de serra, aonde no topo a vista alcançava a distância de cinco a seis léguas, o que equivale a uma medida de trinta a trinta e seis quilômetros, mais ou menos. Nessa época, eu tinha treze anos, e fiz a marcha (nupcial) a pé, acompanhando o noivo, por nome Antônio Ferreira, um rapaz ainda moço, que era empregado de tio Luizinho Pereira.

 

Naquele tempo, em dia de casamento, havia o costume de acompanhar os cortejos a pé, ou a cavalo, desde as respectivas residências dos noivos até o local do casamento. Assim, sempre havia dois cortejos, um do noivo, com seus amigos e familiares, e outro, da noiva, da mesma forma. Nesse dia, eu acompanhava a caminhada do cortejo do casamento do noivo Antônio Ferreira.

 

Nesse dia, havia uma missa na Fazenda de Candinho de Souza, que ficava entre a casa de tio Luizinho Pereira e a casa de tio João de Souza, e, assim, combinaram para ser realizado o casamento na Fazenda de Candinho de Souza. Ali, seria o encontro dos noivos. O tio Luizinho Pereira morava bem retirado de nossa casa, mas, o cortejo do noivo tinha que passar perto de nossa casa, pois em nossa casa reuniram-se as pessoas que iam acompanhar o noivo. E o tio Déco estava também esperando o cortejo do noivo em nossa casa.

 

Assim que o noivo apontou no alto do morro com seu acompanhamento, nós saímos de nossa casa e encontramos com eles logo à frente. Da Cachoeira dos Pereiras até a Fazenda do Candinho de Souza, deveria ter uns vinte quilômetros mais ou menos. O tio Déco, muito animado, não deixava de gritar, sempre naquela brincadeira, até chegar à Fazenda de Candinho. Chegamos na Fazenda de Candinho de Souza, e Gerardina e seu acompanhamento já estavam lá, vindos de uma distância de uns vinte quilômetros mais ou menos. A missa foi rezada às dez horas e, assim que o padre terminou a missa, fez o casamento dos noivos Antônio Ferreira (que era conhecido por Antônio Saturnino, nome que foi herdado de seu pai) e Geraldina Alves de Souza.

 

Dali, da Fazenda do Candinho de Souza, depois da cerimônia do casamento, nós saímos e fomos para a Serra de São João do Norte, aonde era a residência de tio João de Souza. O mais importante dessa história toda é sobre tio Raimundo (o Déco), que não parou de gritar, sempre animado, caminhando a pé, caçoando com um e com outro. De vez em quando, ao longo da caminhada, no meio daquela algazarra toda, ele dava uns gritos. Nisso, nós passamos pela ponte de tábua, que ficava dentro da Fazenda de Pedro Neto. A ponte de tábua passava por cima de um ribeirãozinho d’água, que vinha da cabeceira de São João do Norte até a casa de tio João de Souza. A começar da ponte de tábua, até a casa de tio João, deve ter uns doze quilômetros, mais ou menos. Nesse trajeto todo, o tio Déco não parou de gritar. A alegria era tão grande, que parecia que o meu tio estava fora de si. Até hoje, eu me recordo como ele gritava. Fazendo gestos de muita euforia, ele gritava: “– Bota taquara no fogo João de Souza”. Caminhando e gritando até entrar adentro da casa do tio João. A metade desse trecho é subida de serra, muito íngreme, e, mesmo assim, ele não parou de gritar. Eu quase não aguentei de cansaço e dor nas pernas, pois foi pela primeira vez, que eu fazia uma viagem, tão longe, a pé.

 

A casa do tio João de Souza era de estuque, mas, bem grande. Apesar da comemoração nupcial ter acontecido em um alto de serra, em um lugar ermo afastado de tudo, foi uma festa de muita gente. O povo já estava acostumado a subir serra, principalmente sabendo que haveria baile durante a noite.

 

Meu tio Déco Pereira não era pra ser um homem alegre, pelo o que aconteceu com ele quando ainda era bem moço. Ele já estava casado quando aconteceu, com ele, um acidente. Sempre que ele ia à missa, na Igreja do Divino do Carangola, quando voltava pra casa, trazia rosca seca para os filhos que ficavam em casa com a tia Antoninha. Ele chegou até a padaria de um outro João de Souza, que era conhecido como João Padeiro, na Rua Nova, quase na saída do Arraial, e quando chegou na padaria, o caixeiro, um menino chamado José, que tinha o apelido de Chica, estava com uma arma-de-fogo na mão. Nisto, quando ele chegou, o garoto tava brincando com a garrucha na mão, e puxando o gatilho. Havia uma bala que ainda não tinha sido detonada, e a garrucha disparou. A bala veio alojar na virilha de uma das pernas de tio Déco. A bala encruou, e tio Déco foi examinado por médico, que dizia que a bala encostara-se a um nervo, e que não podia tirar, porque poderia correr o risco de tio Déco não aguentar, e ele podia até morrer, porque o lugar do machucado era sensível, era perigoso tirar a bala.

 

Naquela época, a medicina era muito atrasada, ainda não havia operações, e, por uma coisa simples, a pessoa morria, isto porque os médicos tinham medo de cortar na carne humana, e também não havia anestesia, não havia Lei de indenização. O tio Déco ficou puxando de uma das pernas, e, toda volta de lua, ele sofria com aquela bala encravada na virilha de uma das pernas. Mas, mesmo assim, ele não deixava de ser um homem alegre, animado, trabalhando sempre do mesmo jeito de sempre. Tio Déco Pereira não teve vida longa; talvez por causa desse acidente. Aos quarenta anos, ele faleceu.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: UMA JAGUATIRICA NO TERREIRO DA CASA DO JOÃO MARTINS SOBRINHO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: UMA JAGUATIRICA NO TERREIRO DA CASA DO JOÃO MARTINS SOBRINHO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 
 
 
Outra história idêntica a anterior: Passados muitos anos, eu conheci um filho de Juca Martins por nome João Martins Sobrinho (esse João Martins, a Neuza, minha filha, conheceu já bem velhinho, pois o João Martins era tio-avô dela pelo lado da Joana). Esse João Martins, ainda rapaz novo, morava na Fazenda Fortaleza, propriedade de Álvaro Lourenço, uma imensa Fazenda que, na época, fazia parte do Município de Carangola, Minas Gerais, mas hoje em dia pertence ao Município de Divino.

 

Dizia João Martins que tinha um bicho pegando galinha no poleiro, que ficava no terreiro de sua casa. Todas as noites, ele acordava com os gritos das galinhas, e ele abria a porta, verificava o poleiro, olhava por todos os lados, e não via nada do que ele pensava ser. E assim continuou, por vários dias, aquela perturbação de todas as noites. Parecia que tinha hora marcada. Das onze à meia-noite, era a hora que o bicho vinha para pegar galinha no poleiro.

 

Como ele já tava chateado com aquela perturbação de todas as noites, resolveu perder uma noite de sono, e pensando consigo: “– Hoje eu hei de descobrir o que acontecendo com estas galinhas!”

 

Ele ficou de tocaia, esperando a hora perturbadora chegar. E, quando a noite chegou, ele notou que era um bicho que ia subindo acima do poleiro, e, quando as galinhas voaram gritando, ele se aproximou do poleiro, com a espingarda engatilhada, esperando o bicho descer. O bicho veio descendo com a galinha na boca. Ele esperou o bicho chegar mais perto, para dar o tiro certeiro, mas isto não aconteceu, pois a espingarda falhou. E o bicho, vendo-se apertado, enfrentou o João Martins, arreganhando os dentes pra ele dar passagem, porque ele tava rente com o tronco da árvore.

 

E então, João Martins, atracou-se com o bicho, segurando-o pelo pescoço, e foi apertando, apertando, até o bicho não se mexer mais. Ele dizia que ficou com os braços ensanguentados, mas matou o bicho com as mãos.

 

Depois, ele foi verificar qual era a qualidade do bicho. Era uma jaguatirica bem maior que uma gata caseira, que tava consumindo as suas galinhas, e perturbando a suas noites de sono. Para quem trabalhava na roça o dia todo, como trabalhava o João Martins Sobrinho, o relógio era o sol. Assim que amanhecia o dia, ele já estava com sua enxada na mão, e quando chegava a noite, ele precisava descansar.

 

E, assim, João Martins Sobrinho (já falecido), tio de minha esposa Joana por parte de pai (irmão do meu já falecido sogro Emiliano Martins), daquele dia em diante pode dormir sossegado, mesmo fazendo curativos em seus braços, pois o bicho o arranhou bastante.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: JOÃO MARTINS E A GLORIOSA CAÇADA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: JOÃO MARTINS E A GLORIOSA CAÇADA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA


 


 

Passamos a falar sobre caçadas de bichos do mato: Juca (José) Martins e seu irmão João Martins saíram da Fazenda Maranhão, uma propriedade de Juca Martins, e foram os dois até a Fazenda Cachoeira, propriedade de João Argolão. Não era um passeio de cortesia, era somente para se divertirem com caçada de bichos do mato.

 

A Fazenda Maranhão do fazendeiro Juca Martins localizava-se no Município de Carangola, distante (bem longe!) da Fazenda Cachoeira uns quarenta e cinco quilômetros mais ou menos. Era uma viagem de quase um dia. Mas, eles tinham bons animais de sela, e tinham, também, animais de carga. Para fazerem essa viagem, eles levaram um empregado (para cuidar dos animais) e um burro de carga carregado com mantimento e caixa de cozinha (que era para fazer comida em caso de emergência).

 

Era um costume, do povo daquela época, quando fazia uma viagem por mais de um dia, levar um ou dois burros de carga, carregados com mantimento, conforme o número de gente que houvesse na comitiva. Mas, Juca Martins e seu irmão levaram, também, cachorros-caçadores de anta e de outros bichos.

 

Chegaram então à Fazenda Cachoeira, e foram bem recebidos por João Argolão e sua família. Soltaram os animais e foram até a barra da cachoeira. Ali, tomaram um banho, trocaram de roupas, e voltaram para o jantar. Sinhá Antoninha, a esposa de João Argolão, já estava com a janta preparada. Naquele tempo, não se usava mesa nas Fazendas da Zona da Mata Mineira. Os fogões eram muito grandes e, assim, sobrava lugar para depositar as panelas, e cada pessoa se servia a seu gosto, à vontade. A cozinha de Sinhá Antoninha Mulata, minha bisavó, era muito grande, e, encostados na parede, havia bancos de madeira, compridos, para as visitas se sentarem. João Argolão chamou Juca Martins e seu irmão João Martins, também o empregado de Juca Martins, e mais alguns que estavam na sala, e todos entraram na cozinha de Antoninha. E João Argolão disse: “– Acá é no fogão mesmo! Cada um vai se servindo à vontade”. E todos se serviram à vontade, conforme o costume da roça.

 

Depois, voltaram para a sala e conversaram até tarde da noite. O assunto dos fazendeiros ali reunidos era só as caçadas de bichos do mato. E combinaram em ir até a um lugar chamado Bom Jesus da Samambaia para fazerem uma caçada de anta ou outros bichos. Eles tinham cachorro ensinado para caçar qualquer qualidade de bichos.

 

Assim que amanheceu o dia, tomaram café, fizeram um lanche reforçado, trataram bem dos cachorros, e seguiram para o lugar chamado Samambaia. Passaram pela Fazenda de Ernesto Gomes (que era também caçador), reuniram-se com os Martins Vianas (que eram também caçadores), e formaram um grande grupo de caçadores, e foram até Samambaia. Naquela época, Samambaia tinha poucos moradores, e quase todos os fazendeiros de porte, morando longe uns dos outros. O resto todo era mata virgem, com bicho de toda espécie, e os caçadores podiam caçar à vontade, sem proibição de ninguém.

 

Em Samambaia, eles fizeram muitas caçadas durante dois dias. Eles matavam os bichos, traziam para o acampamento, e, ali, eles preparavam os bichos; salgavam e punham dentro dos balaios, para trazer pra casa.

 

Nesse intervalo, além de acamparem em Samambaia, eles fizeram mais dois outros acampamentos: um em Bom Jesus da Samambaia (um lugar perto do Arraial da Samambaia), e o outro, em lugar por nome Lubrina [Neblina], aonde tinha uma represa de água que era denominada Tanque do Boiadeiro, porque tinha morrido um homem boiadeiro afogado naquela represa.                                

 

Em Bom Jesus da Samambaia, eles ficaram caçando também dois dias. Mataram muitos bichos, fazendo o mesmo processo anterior, preparando os bichos, tudo muito bem, salgando e depositando-os dentro dos balaios.

 

Dali, da Samambaia, eles foram até a Lubrina e acamparam perto do Tanque do Boiadeiro, e soltaram os cachorros, e ficaram esperando, perto do acampamento.

 

E não levou muito tempo, os cachorros jogaram uma anta dentro da represa. A anta encostou aonde ela pode resguardar as costas, e passou a enfrentar os cachorros, qualquer um que se aproximasse dela. E os caçadores não podiam atirar, pois corria o risco de pegar chumbo em algum cachorro. E, assim, o bicho estava levando vantagem sobre os cachorros. E, em um tal momento, um dos cachorros, um mais aventureiro, aproximou do bicho, e agarrou no bicho, e tava naquela luta, e o cachorro tava levando desvantagem, pois a anta era muito mais forte que os cachorros, e tem uma tromba quase igual tromba de elefante, e pegou o cachorro mais aventureiro que tinha se atracado com ela. E João Martins, irmão de Juca Martins, avançou para cima da anta, com um facão na mão, e montou em cima da anta, dando com o facão na cabeça da anta até ela não se mexer mais. E, assim, eles voltaram até a Fazenda Cachoeira com o burro carregado de carne de bichos do mato. Fizeram uma grande festa, porque a caçada teve grande êxito.

 

Esta história foi contada por muitos do lugar, durante muitos anos, porque um homem arriscando sua própria vida, para salvar um cachorro de estimação das garras de um bicho feroz, é um acontecimento que se deve glorificar.

 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: UM PASSEIO NO SÍTIO DO MIGUEL PEREIRA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: UM PASSEIO NO SÍTIO DO MIGUEL PEREIRA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

 
Passemos novamente às recordações referentes aos casos relacionados à Fazenda de meu bisavô João Pereira da Cunha, o sinhô português conhecido pela alcunha de João Barba de Argolão, na Cachoeira dos Pereiras. Eu ainda recordo de um Sítio, que foi dado por ele como herança a Miguel Pereira, que não só herdou a terra como também herdou o sobrenome de João Argolão.

 

Miguel Pereira era um escravo muito estimado pela família de João Argolão. Eu não conheci Miguel, pois, quando eu nasci, ele já era falecido. Mas ainda existiam alguns descendentes de Miguel, que eu recordo deles, como, por exemplo, a Margarida, mãe de Ozébio e China.

 

Nessa época do acontecido que vou narrar, Euzébio já era casado com Redosina, ainda, recém-casados. Havia outros descendentes de Miguel que, no momento, eu não me recordo dos nomes. Isto se passou na década de 1910 a 1920.

 

Na época em que eu conheci esse Sítio, eu era ainda bem menino (nasci em 18 de fevereiro de 1910), com cinco ou seis anos de idade mais ou menos. Recordo-me que, um dia, meu irmão Olavo e tio Camilo (os dois ainda eram solteiros), e mais dois rapazes (que trabalhavam para meu pai), reuniram-se, os quatro, e disseram: “– Vamos lá no Miguel Pereira”, se bem que Miguel Pereira já era falecido. O interessante é que o nome do preto Miguel ficou naquele Sítio, que era conhecido por todos como Sítio do Miguel Pereira. E quando eles já iam saindo, eu disse pra meu irmão Olavo: “– Eu também quero ir aonde ocês vai.” E aí, meu irmão Olavo e tio Camilo diziam: “– Menino não pode ir aonde nóis vai!” Eu comecei a chorar e dizia: “– Eu também quero ir!” E, nesse momento, minha mãe chegou e disse: “– Por que ocês não quer levar o menino? Ele também gosta de passear!” E meu irmão disse: “– Então, vamos!” Eu saí todo contente, mas eles, não. O meu tio Camilo não gostou nada da minha companhia, e ia sempre dizendo: “– A comadre Antoninha não devia deixar o menino sair com rapaz, principalmente aonde nóis vamos!” E começaram a fazer-me recomendação, dizendo: “– O que ocê vê lá, aonde nóis vamos, não vai dizer em casa!” E meu irmão Olavo, também chateado com minha presença, falava até em me bater, se eu dissesse em casa alguma coisa. E, assim, nós fomos, até chegar ao Sítio do Miguel Pereira.       

 

A Sede, onde fora a residência de Miguel Pereira, era uma casa bem grande e que ainda estava em bom estado de conservação. Havia mais três casas menores, e, em uma delas, morava Margarida, com a filha China. Em outra casa, moravam Euzébio e Redosina, ainda no início da vida conjugal. Na Sede, onde fora a residência de Miguel Pereira, ali morava um grupo de mulheres sem maridos.

 

Eu, de minha parte, ainda criança, não vi nada demais sobre o procedimento delas com o tio Camilo, meu irmão Olavo e os outros dois rapazes; mais, era uma brincadeira de jogar mamucha de laranja uns nos outros. E eu, por ser ainda menino, não entrava na brincadeira deles. Mas, eu ficava curioso, observando aquela brincadeira, que eu achava tão engraçada.

 

Na volta, eles me recomendavam e diziam: “– Ocê não vai contar em casa o que ocê viu. Sim?” Eu não dizia nada, ficava calado. Mas, sempre pensando sobre aquela brincadeira deles, com aquelas mulheres desconhecidas que eu vi pela primeira vez.

 

E lá, em casa, numa certa hora, eu lembrei-me daquele momento tão importante, que eu vivi naquele dia de Domingo, aquele dia em que, pela primeira vez, fiz um passeio sem minha mãe e minhas irmãs. E sem pensar na recomendação que me fizeram, ao voltar daquele passeio, na hora em que estávamos todos na cozinha conversando, lembrei-me da brincadeira e disse pra tio Camilo e meu irmão Olavo: “– Eu achei tão engraçado ocês jogando mamucha naquelas muié e elas jogando mamucha nocês”. O tio Camilo saiu da cozinha e foi pra sala. E minha mãe disse pra meu irmão Olavo: “– Aaah! É por isso que ocê não queria levar ele junto com ocês. E meu irmão descartando que não era nada daquilo que eu dissera, que era na casa de Ozébio e de Margarida, e ficou por isso, na hora. Mas, depois que passou aquele momento, ele me disse: “– Nunca mais eu levo ocê em lugar nenhum”. E, daquele dia em diante, eles saíam escondidos de mim.

 

O Sítio, que Miguel Pereira deixou de herança pra seus descendentes, tinha não só frutas de várias qualidades, como também lavoura de café. Esse Sítio, naquela época, ficava entre a estrada de rodagem, pra quem desce do Alto-Carangola para o Divino de Carangola, como era naquele tempo. O Sítio ficava na região do Alto-Carangola, fazendo divisa com os dois distritos (Alto-Carangola e Divino do Carangola). Essa estrada tinha o nome de Estrada dos Ferreiras, porque passava entre a [dentro da] Fazenda de Antônio Ferreira, pai de Totony Ferreira. Pai e filho já são falecidos, mas os filhos e netos de Totony Ferreira, que são seus herdeiros, ainda moram lá.

 

A Estrada Rio-Bahia (Estrada BR-116), construída não faz muitos anos, passa na barra desse Sítio que, hoje em dia [anos 80], pertence ao meu parente Domício Alves, que o comprou. Domício comprou não só esse Sítio, como também comprou uma grande quantidade de alqueires de terra dos herdeiros do Capitão Chico Victor. As terras do Capitão Chico Victor faziam divisa com o Sítio de Marcolino de Sousa (meu tio), que também vendeu o seu Sítio pra Domício Alves. Domício Alves juntou os Sítios, formando uma imensa Fazenda, com pastos e uma grande criação de gado bovino e vacas leiteiras.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: JOÃO ARGOLÃO E A GUERRA DO BRASIL-IMPÉRIO CONTRA O PARAGUAI


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: JOÃO ARGOLÃO E A GUERRA DO BRASIL-IMPÉRIO CONTRA O PARAGUAI


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


Passamos, agora, para um outro caso sobre João Pereira da Cunha, o João Argolão, meu bisavô. Diziam que, poucos anos depois que João Argolão veio da região de Ponte Nova para Cachoeira dos Pereiras (uma extensão de terra localizada em Divino do Carangola), houve uma guerra, que foi denominada como Guerra do Paraguai. Nessa época, os filhos de João Argolão já estavam rapazes.

 

Como o Império do Brasil, naquele tempo, não tinha um exército militar para lutar contra os inimigos, era preciso que todos os brasileiros se reunissem em defesa da Pátria. A guerra durou sete anos e, já quase no final, era preciso caçar gente, até com cachorro, para o combate. Como naquele tempo o Brasil era ainda uma imensa floresta, o povo se escondia no mato.

 

João Argolão, temendo que os seus filhos fossem presos para combater na guerra, mandou fazer um rancho em uma encosta, bem longe da Fazenda, no meio da mata. E mandou os filhos praquele rancho. E recomendou que não se fizesse anarquia [barulho], para não alertar alguém que, por acaso, tivesse cachorro, procurando gente para o combate. E os filhos, que eram obedientes, ficaram presos ali, quietos, naquele deserto, quase sem ver a luz do sol.

 

Todos os dias, um escravo de João Argolão ia levar comida praqueles rapazes escondidos. Naquele deserto, só não era preciso levar água, porque o rancho fora feito na cabeceira d’água, aonde eles apanhavam água para beber.

 

A guerra ainda estava acontecendo, quando, um dia, eles (os filhos de João Argolão) mandaram o escravo, que ia levar a comida pra eles, falar com o pai, se eles podiam dormir uma noite em casa, e que, depois, eles voltavam pro rancho novamente. João Argolão tomou opinião com Sinhá Antoninha, sua mulher, se deveria deixar eles dormirem uma noite em casa. Sinhá Antoninha concordou, pois já estava com saudade dos filhos, pois já fazia tempo que eles estavam escondidos nas matas, com medo de irem pra guerra. E assim o pedido foi aceito.

 

O mesmo escravo que trouxe o pedido para o Sinhô João Argolão deixar os filhos dormirem uma noite em casa, foi o mesmo portador que levou a notícia, que eles podiam vir. E assim eles vieram dormir em casa.

 

Sinhá Antoninha já estava esperando os filhos, até numa meia festa, pois a saudade era muita. Já havia bastante tempo que eles viviam presos naquele rancho, no meio do mato, quase como se fossem criminosos.

 

Por sorte deles, parecendo até que foi mandado por Deus, e foi mesmo, pois Sinhá Antoninha era devota e rezava todos os dias, pedindo a proteção de Deus para seus filhos, justamente naquela noite em que foram dormir em casa, houve uma tempestade, com chuva e vento muito fortes, e a ventania arrancou uma árvore, das maiores, e a copa daquela árvore cobriu o rancho, que ficou arreado no chão. Eles, João Argolão e Sinhá Antoninha, compreenderam que foi a providência de Deus que salvou os filhos de não morrerem esmagados debaixo de uma gaiada de pau. E, daquele dia em diante, não mandaram os filhos se esconder para não irem à guerra. Compreenderam que, para morrer, não precisa ir à guerra. A morte está em qualquer lugar.

 

Mais tarde, depois que as matas foram derrubadas, e também passou a estrada comercial, naquele lugar, onde os filhos de João Argolão ficaram escondidos, o Tio Bastião Pereira, filho do Argolão, casou-se e fixou a sua residência. Ele fez uma grande casa de madeira, daqueles casarões com o pé direito alto, casa de guieiro coberta de telha canoada, barreada com barro amassado e rebocada com areia, com duas salas grandes, com dois quartos de frente para a estrada; no centro tinha outra sala grande e mais dois quartos; e, nos fundos da casa, tinha uma grande cozinha, com despensa. A casa de Tio Bastião era toda assoalhada com tábua de cedro; os esteios eram de braúna (madeira que dura mais de cem anos fincada na terra). Com a morte do pai João Pereira, o Barba de Argolão, Sebastião recebeu a sua parte da herança, que era exatamente a extensão de terra onde ele já estava morando.

 

Meu tio Sebastião Pereira e a esposa Maria Luisa tiveram oito filhos, sendo dois homens e seis mulheres. Nome dos homens: João e Francisco. Nome das mulheres: Maria, Sebastiana, Virgínia, Amélia, Regina e Luzia. Esses foram os herdeiros de tio Bastião Pereira e tia Maria Luisa. Neste momento em que conto esta história (meados dos anos oitenta), não sei se ainda existem alguns dos filhos vivos, mas sei que os netos são, até o dia de hoje, os donos da Fazenda. Os netos e os bisnetos de tio Bastião ainda moram lá.

domingo, 7 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOAQUIM PEREIRA E O CASO DA CAPIVARA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEU AVÔ JOAQUIM PEREIRA E O CASO DA CAPIVARA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 

Voltando aos casos da família por parte de mãe, aos casos da família Pereira da Cunha. Dizia minha avó Maria Brasilina que num certo dia meu avô Joaquim Pereira (que estava em início do estado de nervos, começando a falar sozinho, já meio demente), saiu de casa e foi subindo o morro da Cachoeira dos Pereiras dando de braço, mencionando com a cabeça; de vez em quando parava e olhava para um lado, olhava para outro lado, e continuou a caminhada, sempre subindo o morro, até encobrir-se no topo do caminho em direção à cachoeira.

 

Com o espaço de uma hora, mais ou menos, meu avô Joaquim Pereira despontou de volta no alto e veio descendo, um pouco apressado, e, quando chegou, disse para minha avó: “– Maria, eu matei uma capivara embaixo da cachoeira”. Minha avó Maria Brasilina disse: “– Como é que ocê matou capivara? Ocê subiu o morro só, sem companheiro. Daqui, eu vi até ocê virar o morro, ocê não levou arma de fogo. Como é que ocê matou capivara, ômi? Deixa de mentira!” E meu avô Joaquim disse: “¾ Vai lá, pra ! Tá morta mesmo! Eu ia passando e vi a capivara quentando sol, lá embaixo da cachoeira. Eu apanhei uma pedra e dei uma reviravolta com o braço, e joguei a pedra de cima pra baixo. A pedra foi certinha na cabeça da capivara. E vi quando ela ficou estrebuchando no chão.”

 

Minha avó Maria Brasilina ficou meio confusa, não querendo acreditar, mas, mesmo assim, mandou um dos filhos para verificar se era verdade. E quando o filho chegou embaixo da cachoeira, encontrou a capivara morta com uma brecha na cabeça. Apanhou a capivara e trouxe até a casa. E assim ficou confirmado que meu avô Joaquim Pereira, já meio demente, havia matado uma capivara com uma pedra, jogada de uma distância de uns cinquenta metros, mais ou menos. Esse caso acontecido era contado por todos os meus tios, irmãos de minha mãe. E minha mãe confirmava que era verdade.


sábado, 6 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEUS DOIS IRMÃOS RESERVISTAS NA REVOLUÇÃO DE TRINTA E DOIS


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: MEUS DOIS IRMÃOS RESERVISTAS NA REVOLUÇÃO DE TRINTA E DOIS


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 

Na época desse caso que vou contar, eu já estava com vinte e dois anos de idade, tendo eu dois irmãos, reservistas, o Álvaro e o Eurico, os quais foram intimados para comparecerem e fazer parte do Comando Revolucionário, na revolução de trinta e dois, no governo de Getúlio Vargas.

 

As estradas da Zona da Mata, em Minas Gerais, naquela época, eram péssimas, mas, mesmo assim, os caminhões do exército rodavam com aquelas bandeiras vermelhas, agitadas com o vento, e os homens fardados gritando feitos loucos.

 

E eles desceram do caminhão, e chegaram até a casa de meu pai, e perguntaram pelo Álvaro e pelo o Eurico. Meu pai disse: “– O Álvaro já é casado, é senhor de si. O Eurico, eu posso mandar. Qual o dia?” Eles disseram: “– Amanhã, manda ele até Carangola, para que ele se apresente ao Comandante das Forças Revolucionárias”.

 

Eurico iria servir no 10o Batalhão, em Juiz de Fora, pois o dito 10o Batalhão fora convocado para manter a paz em Paraíba do Norte, na ocasião em que o Governador João Pessoa foi assassinado. O 10o Batalhão de Infantaria, no qual o Eurico iria servir, não chegou na Paraíba, mas, foi até Montes Claros, que fica na divisa de Minas Gerais com a Paraíba. Em Montes Claros, os soldados ficaram acampados, esperando ordens para atacar os revoltosos, mas, quando os revoltosos souberam que o 10o Regimento de Infantaria de Juiz de Fora estava pronto para atacar a Cidade, e que estava também perto, em Montes Claros, a Revolução terminou. E, assim, o 10o Batalhão de Infantaria de Juiz de Fora voltou, sem ser preciso dar nem um tiro.

 

Mas, no dia em que os tais homens foram à casa de meu pai, aquele grupo do caminhão ainda não havia tido notícia do término da Revolução. Assim, já que fora convocado, o Eurico não se intimidou. No outro dia, seguinte, ele preparou-se, despediu-se de todos nós, e seguiu até Carangola. Mas, também, com muita sorte, ao chegar em Carangola, soube que a revolução tinha terminado.

 

No dia em que meu pai havia sido intimado para mandar o Eurico ao Comando das Forças Revolucionárias, e intimado a procurar o Álvaro, para também incorporá-lo no Comando da Revolução, eu estava em casa do compadre Divino, juntamente com muitas outras pessoas que frequentavam a casa dele, para fazer cabelo ou, alguns, para barbear. Foi aí então que chegou a notícia, ali na sala do compadre Divino, que tinha uns homens, com um caminhão, convocando reservistas para a revolução. E disseram também que meus dois irmãos já estavam presos, para descerem até Carangola, e que, talvez, qualquer um entre os que ali estavam na casa do compadre, até quem não fosse reservista, estava sujeito a ser convocado para a luta.

 

Nesta dita hora, o compadre Divino de Souza lembrou-se da solapa de pedra da fazenda da mãe dele e disse pra mim: “– Compadre Antônio, você hoje não vai pra casa não! Vamos nos esconder lá no alto da pedra. Lá tem uma solapa bem grande, e nós vamos passar a noite lá, e ficamos até a guerra acabar”. Eu respondi ao meu cunhado e compadre: “– Eu não vou! Se os meus irmãos já estão presos, para irem combater, eu também vou”. Eles me imploraram, para que eu não voltasse para casa, mas, eu sempre dizendo: “– Se meus irmãos já estão prontos para irem combater, eu também vou”.

 

E, assim, eles viram que não adiantava nada insistirem comigo, mas, resolveram subir o morro. O compadre Divino tinha mais dois irmãos, que já estavam rapazinhos, mais ou menos dezoito a vinte anos, tinha também dois vizinhos com, mais ou menos, a mesma idade de seus irmãos, e reuniram-se, com mais alguns, e subiram o morro, carregando esteira de taboa e cobertores, até água eles levaram para o morro, bem no alto.

 

Para chegarem à solapa, eles teriam de passar pelo mato, que circundava o morro. Eu estava ainda em distância, e olhei para trás, e vi quando eles estavam subindo o morro. Era uma fila de uns oito a dez, mais ou menos. E, quando cheguei em casa, não era nada da notícia que tinha chegado lá em casa do compadre Divino. O Eurico estava debaixo de ordem, o Álvaro ainda não tinha aparecido, e os homens, os que estiveram lá, já tinham ido embora, deixando ordem com meu pai para mandar os dois no outro dia.

 

Mas, eu fiquei preocupado com o compadre Divino, que tinha ido se esconder naquele alto de serra, aonde tinha tanto perigo, como na guerra; além de ter onça e outros bichos perigosos, tinha também cobras venenosas, como jararacuçu, cascavel, e outros perigos, que podia haver contra eles.

 

E com esta preocupação, que fiquei, pensando neles, eu fui no outro dia até a casa do compadre Divino, para saber o que tinha acontecido. E já encontrei ele em casa, e, com muita graça, ele contava o que tinha acontecido. Dizia ele, que acamparam debaixo da pedra, e dormiram. Lá, tantas horas da noite, ele acordou, e esqueceu-se que estava debaixo de uma pedra, e, pensando que estava em casa, levantou, e bateu com a cabeça na pedra, quase desmaiando. Passou a mão na cabeça, e notou que tinha um caroço no alto da cabeça, que, lá em Minas Gerais, eles chamam isto de “um galo”. E, nisso, ele acordou os outros companheiros e disse: “– Vamos embora para casa! Agente, pra morrer, não é preciso ir para a guerra, pois eu quase morri, aqui mesmo”. E desceram o morro, ainda com noite. Ele contava isto até com muita graça.

 

Compadre Divino de Souza era muito brincalhão, pra ele não tinha tempo ruim. Comadre Malvina tinha uma cabra de leite, que dava dois litros de leite por dia. O leite era para a alimentação dos filhos, mas sempre sobrava leite e ela fazia café com leite. Enchia um bule bem grande de café com leite, punha em cima da mesa, e um prato cheio de bolo de fubá de milho. Compadre Divino, sempre naquela brincadeira, dizia pra mim: “– Não tem cerimonha!” E enquanto tivesse café com leite no bule e bolo no prato, ele dizia: “– Não é pra sobrar nada!” E sempre sorrindo.

 

Mas não teve a felicidade de viver ao lado da mulher amada por muitos anos. Comadre Malvina, minha irmã mais velha, faleceu aos quarenta e dois anos de idade, deixando o Compadre Divino com dez filhos, sendo que o filho mais velho já estava casado. O segundo filho já estava rapaz, e tinha uma menina moça e mais sete filhos menores. Ele se viu obrigado a tornar a se casar.

 

Bem perto de sua casa morava um senhor que era pai de muitos filhos, muito amigo do Compadre Divino, e vendo que a vida do Compadre era muito sacrificada, pois eram muitas crianças pra ele olhar sozinho, sem uma companheira. E os dois entraram em acordo. Compadre Divino casava com a filha mais velha, e o filho mais velho desse vizinho casava com a filha do Compadre Divino. E assim Compadre Divino casou a filha com o filho do vizinho, e o vizinho casou a filha com o Compadre Divino.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MEU IRMÃO OLAVO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MEU IRMÃO OLAVO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 

Voltando à história de minha família Souza Costa. Em mil novecentos e vinte, o meu irmão mais velho, por nome Olavo de Souza Costa, casava-se com Luzia (uma neta de Antônio de Souza Moreira, o primo rico de meu avô paterno José Antônio de Souza Moreira).

 

Dona Francisca Lopes, mãe de Luzia, que tinha o apelido de dona Chiquinha, era viúva de Pedro de Souza Moreira. Foi uma bela festa o casamento de meu irmão Olavo, pois dona Chiquinha era fazendeira, e rica. Pois não havia muito tempo que Pedro de Souza Moreira tinha morrido e deixado uma bela Fazenda pra viúva e os filhos.

 

O casamento de meu irmão Olavo foi realizado na casa da noiva. O padre e o escrivão saíram do Divino de Carangola com uma comitiva de amigos de dona Chiquinha e de seus filhos em direção à fazenda de Dona Chiquinha.

 

Em casa de meu pai, antes da cerimônia do casamento, também houve uma festinha em homenagem aos noivos. Os convidados reuniram-se na casa de meu pai, que ofereceu um almoço para todos os que vieram, dali dos arredores, para fazer o acompanhamento dos noivos até a Fazenda de dona Chiquinha.

 

Recordo-me como foi o acompanhamento, apesar de minha pouca idade, pois na época eu tinha dez anos. A distância até à Fazenda de dona Chiquinha, não muito longe, era de apenas seis quilômetros para caminhar a pé.

 

Como meu irmão Olavo, já com vinte anos de idade, ainda trabalhava sob a responsabilidade de meu pai, meu pai comprou tudo o que foi preciso para o casamento.

 

Assim, nós descemos da Fazenda Cachoeira dos Pereiras, nosso lar, margeando o rio Carangola até à Fazenda de dona Chiquinha. Meu pai tinha comprado muito foguete, para festejar o casamento de seu filho mais velho, e entregou tudo ao tio Marcolino, que era fanático em soltar foguete. Nós ainda não tínhamos caminhado nem três quilômetros e tio Marcolino já estava soltando foguete. E, de lá da Fazenda de dona Chiquinha, correspondiam da mesma forma. Tio Marcolino soltava um foguete, de lá soltavam outro.

 

Abaixo da Fazenda de dona Chiquinha Lopes havia uma ponte para atravessar o rio Carangola. E passamos em frente à Fazenda, com o acompanhamento, uns gritando de um lado, outros gritando do outro lado do rio. E foguetes se encontrando no ar. Fizemos a volta pela ponte, e fomos, até chegar ao terreiro da Fazenda, com os foguetes se cruzando no ar. O padre e o escrivão já estavam esperando para a realização do casamento.

 

Após o término do casamento, os noivos receberam os cumprimentos dos convidados. Algumas mulheres e moças passavam sal na boca dos rapazes e moças e diziam: “– É pra ocê não aguar!” Era uma brincadeira de muita alegria.

 

Depois dessa brincadeira, foi servido o jantar. Uma grande mesa fincada no terreiro, com dez metros mais ou menos de comprimento por um metro e meio de largura. As serventes lotaram a mesa, de canto a canto, de saborosas comidas. E o povo, que não era pouca gente, comeu até se fartar.

 

Houve também o baile, que durou a noite toda, até o dia amanhecer. Dona Chiquinha Lopes já tinha três filhas e um filho casados, e, com o casamento de Luzia, ficaram sendo quatro filhas e um filho casados. Mas ainda tinha dois filhos, rapazes solteiros, e uma moça já na idade de se casar. E tinha também dois meninos de pouca idade, menores.

 

Com esta união, da família Souza Costa com a família Souza Moreira, formou-se uma grande consideração entre as duas famílias. Uma das minhas irmãs, por nome Malvina, começou um namoro com um dos filhos de dona Chiquinha, por nome Divino de Souza. Esse namoro de minha irmã, eu não sei o porquê, durou seis anos, até ser realizado o casamento. Mas, finalmente, realizou-se, pois Malvina já estava com dezoito anos e Divino com vinte e seis quando se casaram.

 

Meu pai fez uma grande festa para o casamento de Malvina com o Divino de Souza, tal e qual a que houve na Fazenda de dona Chiquinha Lopes, quando do casamento de Olavo com Luzia. Só que o casamento de Malvina não foi realizado em casa, mas sim na Igreja, em Divino de Carangola. O acompanhamento foi grandioso. Todos foram a cavalo.

 

Eu já estava com dezesseis anos de idade e tinha um cavalo muito bom, assim, fui um dos que acompanharam minha irmã Malvina até à Igreja. E fui eu que carreguei o baú com os vestimentos da noiva.

 

Naquela época, casava-se primeiramente no eclesiástico, depois é que se ia casar no civil. Saímos da Igreja e fomos para o Cartório, que era na Praça. Quando terminou o casamento no Cartório, fomos apanhar os animais para voltarmos para nossa casa, que, nesse dia, já estava repleta de gente, pois meu pai havia convidado toda a vizinhança, e todos compareceram em massa.

 

Meu cunhado Divino de Souza também tinha os seus convidados. A nossa casa encheu-se de gente, que não cabia dentro de casa. Na frente da casa tinha um grande terreiro, que ficou lotado de gente. Meu pai fez um gasto grande, de muita comida e doce. Todos comeram à vontade, e ainda sobrou tanto, principalmente, doce, que, quatro semanas depois, ainda tinha doce na dispensa de nossa casa, que até chegou a criar mofo dentro da lata.

 

Para todas as minhas irmãs que casaram, meu pai Zeca de Souza fez festa, mas, a festa do casamento de Malvina foi a maior de todas.

 

Os dois primeiros filhos de Malvina eram homens, e pela grande amizade entre mim e Divino de Souza, logo que nasceu o primeiro filho, pediram-me para eu escolher o nome do menino, o que fiz com o maior prazer. Logo veio o segundo e aconteceu a mesma coisa. Fui eu que escolhi o nome. E não ficou só nisso. Eu fui também o padrinho.

 

Depois que passamos a ser compadres, aumentou mais a nossa amizade. Dificilmente, eu passava duas semanas sem ir até a casa de compadre Divino e comadre Malvina. Aquela harmonia entre o casal deixava a todos sensibilizados. E, também, eles faziam tanto agrado a gente, que o domingo passava sem que se percebesse o dia passar, e, quando voltava para casa, já era noite.

 

Compadre Divino era também um bom barbeiro na roça. Tinha também uma grande freguesia de corte de cabelo. Era só aos sábados e domingos que ele cortava cabelo, e fazia também algumas barbas. Os outros cinco dias da semana, ele trabalhava na roça. Ele ainda tinha a herança deixada pelo pai Pedro de Souza Moreira, as terras aonde ele fazia as plantações de cereais.

 

A Fazenda, que Pedro de Souza Moreira deixou de herança para a esposa dona Chiquinha Lopes e os filhos, quase não tinha terreno baixo. Era um terreno de altos e baixos, sendo que embaixo passava o rio Carangola, e em cima era uma montanha. A Fazenda ficava abaixo da montanha e, para chegar até ao alto da montanha, tinha que subir muito. E, nessa montanha, havia uma solapa, espécie de um salão, que podia até esconder gente, se fosse preciso. Ali, debaixo da solapa, era seco, não nascia mato. E essa solapa na fazenda de dona Chiquinha foi o lugar onde aconteceu um caso interessante que quero contar.