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terça-feira, 16 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MINHA IRMÃ MARIA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MINHA IRMÃ MARIA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 

No ano de 1919, meu pai Zeca de Souza fez o casamento da primeira filha, por nome Maria. Era ainda menor de idade, porque não tinha completado dezesseis anos, mas, já era moça formada. Como era de boa aparência, tinha muitos pretendentes. Mas, naquela época, não era a moça que escolhia o namorado, mas, sim, era o pai que escolhia o pretendente de sua filha. Isto acontecia em quase todas as famílias. Poucas famílias deixavam as filhas escolherem os namorados. Maria, minha irmã, foi pedida em casamento por um moço por nome Felismino Alves Portes. Como, naquela época, eu tinha apenas nove anos de idade, não sei se Maria namorava assiduamente Felismino, mas, também, a moça daquela época, não precisava namorar, para se casar, porque eram os pais que davam o sim. Como Felismino era um moço jovem, de vinte e um a vinte dois anos de idade, muito trabalhador, filho de um primo de minha mãe, por nome Pedro Alves da Silva, e era também compadre de meus pais, e de grande consideração, o pedido de casamento foi aceito. O casamento foi marcado com pouco tempo de prazo. Meu pai tinha algum recurso, mas nunca teve dinheiro disponível, para tratar de um assunto como esse. Tínhamos um canavial bem grande, de cana madura no ponto de moer. Nós tínhamos, também, um engenho de madeira, mas o nosso engenho não era suficiente para desenvolver a moagem da cana com rapidez. Pouco abaixo da Cachoeira, distante três quilômetros mais ou menos, na Fazenda de tio Bastião Alves, tinha engenho de ferro, movido a água. Meu pai foi até a casa de Ramiro, um dos filhos de tio Bastião Alves, e ofereceu a cana a Ramiro, para moer a meia. E assim eles combinaram, que a moagem da cana tinha de ser mais rápida, porque era para fazer o casamento de Maria (que tinha sido pedida em casamento por Felismino, que era sobrinho de Ramiro). Naquela mesma semana, começou a moagem da cana. Nessa época, meu pai tinha dois filhos já rapazes, o Olavo e o Álvaro. E tinha dois ainda menores, que era eu, Antônio, e meu irmão Eurico. Papai tinha também dois empregados, que trabalhavam diariamente para nós, o Sebastião Rodrigues e o João Lopes. Meu pai ainda arranjou mais alguns ajudantes, pois precisava, com urgência, de dinheiro, para as despesas de compras de enxoval, e roupas para a família, e mais outras despesas de comestíveis, porque, naquela época, quando um pai ia fazer o casamento de uma filha, toda a vizinhança era convidada. E todos faziam questão de estar presente naquele dia. Até mesmo alguns, que não eram convidados para as festas de casamento, vinham meio disfarçados, mas não deixavam de comparecer. Os que não eram convidados, chegavam mais tarde, e ficavam meio afastados, até que o dono da casa, ou um filho, chamasse: “– Chega pra cá!” Nessa hora, todos os convidados já tinham comido fartamente, mas as mesas ainda estavam armadas no terreiro e, até à noite, a mesa era reformada com comidas e doces. Nessa época, meu pai ainda trabalhava na roça. Meu pai botou a turma toda no canavial, a cortar cana, ele também junto. Ramiro tinha o seu carro de bois, mas, arranjou outro carro. Eram dois carros, com duas juntas de bois, a puxar cana para o engenho até quatro horas da tarde. O engenho rodava, moendo cana e enchendo os cochos de garapa. O fabrico da rapadura ia até às dez horas da noite, e, assim, em poucos dias, o senhor Ramiro Alves moeu toda a cana do nosso canavial. Meu pai foi ao Divino do Carangola, vendeu a rapadura, e conseguiu arranjar o dinheiro que precisava para toda a despesa do casamento da primeira filha.

 

Quando chegou o prazo marcado, para o enlace matrimonial de sua primeira filha, meu pai já estava com o dinheiro necessário e não ficou com dívidas. O casamento foi realizado na Matriz de Divino de Carangola. Para o acompanhamento, foram todos os convidados a cavalo (o que era um sinal de riqueza). A chegada, na Fazenda de meu pai, foi com muitos fogos-de-artifício, principalmente, aqueles foguetes-de-cauda. À frente, vinha o fogueteiro, soltando foguetes. No terreiro de nossa casa também um fogueteiro, soltando foguetes. Com o barulho, alguns cavalos se espantavam, ainda com os cavaleiros montados em cima e riscando as esporas nos cavalos. Tinha arcos de bambus com enfeitos de bandeirinhas de papel amarrados nos arcos, de distância de cinquenta metros até a porta da sala. Os noivos foram recebidos com flores desfolhadas (pétalas de rosas miúdas, margarida, bem-me-quer, moça-velha, flores de todas as espécies, que tinham muitas nos canteiros que rodeavam a nossa casa). Jogar flores nos noivos era o que se usava na época. Eu era ainda bem criança, mas lembro-me que foi uma festa muito bonita, com muita gente, que não cabia dentro da casa, espalhada pelo terreiro. No terreiro, foi fincada a mesa, para todos os convidados jantarem à vontade, e com sobremesa de doces de diversas qualidades. Assim que chegou a noite, houve o baile, para todos se divertirem, na mais perfeita ordem, até o dia clarear. E assim foi o casamento de Maria, a mais velha de minhas irmãs, que contava apenas dezesseis anos ao casar.

 

Meu cunhado Felismino já tinha casa para morar. Havia uma casa desocupada, perto da residência de seu pai, aonde ele iria morar, mas, como ainda não estava tudo organizado, ele passou os primeiros dias de núpcias em nossa casa. Ele trabalhava nas terras de seu pai, e, todos os dias, ele saía de manhã e voltava à tarde.

 

Naquela época, havia dois partidos políticos. Eu não sei se era por brincadeira de meu pai com o seu primeiro genro, ou se era de verdade, mas, todas as noites, os dois discutiam, em brincadeira, sobre política. Meu pai era do partido Quati e Felismino, do partido Tatu. Meu pai dizia para o genro: “– Nesta eleição, o Quati ganha!”, e Felismino dizia: “– Não!, Zeca, quem vai ganhá é o Tatu!” E os dois ficavam naquela brincadeira, horas e horas, discutindo sobre política. Eu, naquele tempo, como não entendia nada de política, ficava pensando o que seria aquilo? Um dizia: “– Quem vai ganhar é o Quati!” O outro já dizia o contrário: “– Quem vai ganhar é o Tatu!” E digo francamente: até hoje, já passados sessenta e cinco anos, eu nunca fiquei sabendo se na década de 1910 a 1920 existiu esses dois partidos políticos, Quati e Tatu. Se existiu esses dois partidos, Quati e Tatu, foi antes dos partidos Legião e Bernardista, porque, desses, eu me lembro bem.

 

Eu me lembro dos partidos Legião e Bernardista, porque, quando fiz vinte anos, fui chamado para ir até a Fazenda Rochedo, que naquela época pertencia ao Capitão Francisco Victor da Silva, chefe político da região. O capitão Francisco Victor da Silva era conhecido por Capitão Chico Victor. Chegando lá, na Fazenda Rochedo, apresentei-me ao Capitão e disse-lhe: “– O que o senhor desejaria comigo?” O capitão olhou pra mim e disse-me: “– Quantos anos tem?” Eu respondi: “– Vinte anos!” O capitão tinha um sésto de falar “já viu”. Então, ele disse: “– Já viu!, para ser eleitor, ocê falta um ano, mas não faz mal!, eu vou aumentar um ano na sua idade. Ocê sabe escrever?” Eu respondi: “– Escrevo mal, mas escrevo!” Ele apanhou uma folha de papel almaço, e colocou em uma mesa, e disse pra mim: “– Eu vou ditando, ocê vai escrevendo!” E, assim, eu fiz o requerimento ao Senhor Juiz Eleitoral, e, quando terminei de escrever, ele elogiou a minha caligrafia, e disse: “– Já viu!, ocê tem boa caligrafia! De hoje em diante, ocê é meu eleitor!” Isto foi em 1930.

 

Essa foi a primeira eleição da qual participei. Votei em Alto-Carangola, um Arraial pequeno. O candidato à Presidência da República era Júlio Prestes. Na época, eu não tinha o mínimo interesse em candidato nenhum. Votei com a cédula que me deram (o que era muito comum, naquela época, em minha região). Eu sabia que estava votando em Júlio Prestes, que era o candidato do Capitão Chico Victor. Foi um dia de muita euforia, para os eleitores fanáticos, mas, para mim, foi uma festa como outra qualquer. À tarde, quando tudo tinha já acabado, eu voltei pra casa, e já de noite, nem mais pensei na eleição de Alto-Carangola. Mas, no decorrer de alguns dias, correu a notícia, que Júlio Prestes tinha ganhado a eleição, mas que não deixaram ele tomar posse. E logo começou a Revolução de Trinta.

 

Depois da Revolução de Trinta, o partido da oposição saiu vencedor. Era o partido de Getúlio Vargas e Arthur Bernardes (Partido Bernardista). Júlio Prestes e seus companheiros foram obrigados a deixar a Pátria, e viver na Europa. Com essa reviravolta de política, o Capitão Chico Victor e seus filhos sofreram algumas humilhações, pois os contrários, do outro partido, ficaram graúdos, porque eram da política de Arthur Bernardes, o qual (juntamente com Getúlio Vargas) saiu vitorioso na Revolução de Trinta.

 

Mas, essa união dos dois estadistas, o Arthur Bernardes e o Getúlio Vargas, não durou muito. Eles se desentenderam, e Getúlio Vargas, sendo o mais esperto, ficou mandando sozinho. Getúlio Vargas, sabendo que o outro partido era o mais forte, abraçou-se com ele e chutou o Arthur Bernardes, com todos os seus eleitores.

 

O Brasil precisa ter Partido de direita e Partido de esquerda, porque, quando um Partido está mandando, o outro está fiscalizando. Mas, o melhor de tudo seria se ninguém precisasse fiscalizar. Mas, isto não acontece, porque nem todos têm boa intenção. O que eu acho pior, na política, é a vingança. Quando um partido está mandando, os homens deveriam pensar que, um dia é da caça, o outro, é do caçador. Se hoje um Partido está por cima, amanhã poderá estar por baixo. Deviam saber ganhar, e saber perder, e viver em harmonia uns com os outros. Seria tão bom se assim fosse! Mesmo sabendo que a política é inevitável, eu a detesto. Como brasileiro e patriótico, dou o meu voto, porque é o meu dever, mas, não tenho candidato preferido.

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