A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MINHA IRMÃ
MARIA
ANTÔNIO DE
SOUSA COSTA

No ano de 1919, meu pai Zeca de Souza fez o
casamento da primeira filha, por nome Maria. Era ainda menor de idade, porque
não tinha completado dezesseis anos, mas, já era moça formada. Como era de boa
aparência, tinha muitos pretendentes. Mas, naquela época, não era a moça que
escolhia o namorado, mas, sim, era o pai que escolhia o pretendente de sua
filha. Isto acontecia em quase todas as famílias. Poucas famílias deixavam as
filhas escolherem os namorados. Maria, minha irmã, foi pedida em casamento por
um moço por nome Felismino Alves Portes. Como, naquela época, eu tinha apenas
nove anos de idade, não sei se Maria namorava assiduamente Felismino, mas,
também, a moça daquela época, não precisava namorar, para se casar, porque eram
os pais que davam o sim. Como Felismino era um moço jovem, de vinte e um a
vinte dois anos de idade, muito trabalhador, filho de um primo de minha mãe,
por nome Pedro Alves da Silva, e era também compadre de meus pais, e de grande
consideração, o pedido de casamento foi aceito. O casamento foi marcado com
pouco tempo de prazo. Meu pai tinha algum recurso, mas nunca teve dinheiro
disponível, para tratar de um assunto como esse. Tínhamos um canavial bem
grande, de cana madura no ponto de moer. Nós tínhamos, também, um engenho de
madeira, mas o nosso engenho não era suficiente para desenvolver a moagem da
cana com rapidez. Pouco abaixo da Cachoeira, distante três quilômetros mais ou
menos, na Fazenda de tio Bastião Alves, tinha engenho de ferro, movido a água.
Meu pai foi até a casa de Ramiro, um dos filhos de tio Bastião Alves, e
ofereceu a cana a Ramiro, para moer a meia. E assim eles combinaram, que a
moagem da cana tinha de ser mais rápida, porque era para fazer o casamento de
Maria (que tinha sido pedida em casamento por Felismino, que era sobrinho de
Ramiro). Naquela mesma semana, começou a moagem da cana. Nessa época, meu pai
tinha dois filhos já rapazes, o Olavo e o Álvaro. E tinha dois ainda menores,
que era eu, Antônio, e meu irmão Eurico. Papai tinha também dois empregados,
que trabalhavam diariamente para nós, o Sebastião Rodrigues e o João Lopes. Meu
pai ainda arranjou mais alguns ajudantes, pois precisava, com urgência, de
dinheiro, para as despesas de compras de enxoval, e roupas para a família, e
mais outras despesas de comestíveis, porque, naquela época, quando um pai ia
fazer o casamento de uma filha, toda a vizinhança era convidada. E todos faziam
questão de estar presente naquele dia. Até mesmo alguns, que não eram
convidados para as festas de casamento, vinham meio disfarçados, mas não
deixavam de comparecer. Os que não eram convidados, chegavam mais tarde, e
ficavam meio afastados, até que o dono da casa, ou um filho, chamasse: “– Chega
pra cá!” Nessa hora, todos os
convidados já tinham comido fartamente, mas as mesas ainda estavam armadas no
terreiro e, até à noite, a mesa era reformada com comidas e doces. Nessa época,
meu pai ainda trabalhava na roça. Meu pai botou a turma toda no canavial, a
cortar cana, ele também junto. Ramiro tinha o seu carro de bois, mas, arranjou
outro carro. Eram dois carros, com duas juntas de bois, a puxar cana para o
engenho até quatro horas da tarde. O engenho rodava, moendo cana e enchendo os
cochos de garapa. O fabrico da rapadura ia até às dez horas da noite, e, assim,
em poucos dias, o senhor Ramiro Alves moeu toda a cana do nosso canavial. Meu
pai foi ao Divino do Carangola, vendeu a rapadura, e conseguiu arranjar o
dinheiro que precisava para toda a despesa do casamento da primeira filha.
Quando chegou o prazo
marcado, para o enlace matrimonial de sua primeira filha, meu pai já estava com
o dinheiro necessário e não ficou com dívidas. O casamento foi realizado na
Matriz de Divino de Carangola. Para o acompanhamento, foram todos os convidados
a cavalo (o que era um sinal de riqueza). A chegada, na Fazenda de meu pai, foi
com muitos fogos-de-artifício, principalmente, aqueles foguetes-de-cauda. À frente,
vinha o fogueteiro, soltando foguetes. No terreiro de nossa casa também um
fogueteiro, soltando foguetes. Com o barulho, alguns cavalos se espantavam,
ainda com os cavaleiros montados em cima e riscando as esporas nos cavalos.
Tinha arcos de bambus com enfeitos de
bandeirinhas de papel amarrados nos arcos, de distância de cinquenta metros até
a porta da sala. Os noivos foram recebidos com flores desfolhadas (pétalas de
rosas miúdas, margarida, bem-me-quer, moça-velha, flores de todas as espécies,
que tinham muitas nos canteiros que rodeavam a nossa casa). Jogar flores nos
noivos era o que se usava na época. Eu era ainda bem criança, mas lembro-me que
foi uma festa muito bonita, com muita gente, que não cabia dentro da casa,
espalhada pelo terreiro. No terreiro, foi fincada
a mesa, para todos os convidados jantarem à vontade, e com sobremesa de doces
de diversas qualidades. Assim que chegou a noite, houve o baile, para todos se
divertirem, na mais perfeita ordem, até o dia clarear. E assim foi o casamento
de Maria, a mais velha de minhas irmãs, que contava apenas dezesseis anos ao
casar.
Meu cunhado Felismino já
tinha casa para morar. Havia uma casa desocupada, perto da residência de seu
pai, aonde ele iria morar, mas, como ainda não estava tudo organizado, ele
passou os primeiros dias de núpcias em nossa casa. Ele trabalhava nas terras de
seu pai, e, todos os dias, ele saía de manhã e voltava à tarde.
Naquela época, havia dois partidos políticos. Eu não
sei se era por brincadeira de meu pai com o seu primeiro genro, ou se era de
verdade, mas, todas as noites, os dois discutiam, em brincadeira, sobre
política. Meu pai era do partido Quati e
Felismino, do partido Tatu. Meu pai
dizia para o genro: “– Nesta eleição, o Quati
ganha!”, e Felismino dizia: “– Não!, sô
Zeca, quem vai ganhá é o Tatu!” E os dois ficavam naquela
brincadeira, horas e horas, discutindo sobre política. Eu, naquele tempo, como
não entendia nada de política, ficava pensando o que seria aquilo? Um dizia: “–
Quem vai ganhar é o Quati!” O outro
já dizia o contrário: “– Quem vai ganhar é o Tatu!” E digo francamente: até hoje, já passados sessenta e cinco
anos, eu nunca fiquei sabendo se na década de 1910 a 1920 existiu esses dois
partidos políticos, Quati e Tatu. Se existiu esses dois partidos, Quati e Tatu, foi antes dos partidos Legião
e Bernardista, porque, desses, eu me
lembro bem.
Eu me lembro dos partidos Legião e Bernardista, porque, quando fiz vinte anos, fui chamado para ir até
a Fazenda Rochedo, que naquela época pertencia ao Capitão Francisco Victor da
Silva, chefe político da região. O capitão Francisco Victor da Silva era
conhecido por Capitão Chico Victor.
Chegando lá, na Fazenda Rochedo, apresentei-me ao Capitão e disse-lhe: “– O que
o senhor desejaria comigo?” O capitão
olhou pra mim e disse-me: “– Quantos
anos tem?” Eu respondi: “– Vinte anos!” O capitão tinha um sésto de falar “já viu”.
Então, ele disse: “– Já viu!, para
ser eleitor, ocê falta um ano, mas
não faz mal!, eu vou aumentar um ano na sua idade. Ocê sabe escrever?” Eu respondi: “– Escrevo mal, mas escrevo!” Ele
apanhou uma folha de papel almaço, e colocou em uma mesa, e disse pra mim: “– Eu vou ditando, ocê vai escrevendo!” E, assim, eu fiz o
requerimento ao Senhor Juiz Eleitoral, e, quando terminei de escrever, ele elogiou
a minha caligrafia, e disse: “– Já viu!,
ocê tem boa caligrafia! De hoje em
diante, ocê é meu eleitor!” Isto foi
em 1930.
Essa foi a primeira eleição da qual participei.
Votei em Alto-Carangola, um Arraial pequeno. O candidato à Presidência da República
era Júlio Prestes. Na época, eu não tinha o mínimo interesse em candidato
nenhum. Votei com a cédula que me deram (o que era muito comum, naquela época,
em minha região). Eu sabia que estava votando em Júlio Prestes, que era o
candidato do Capitão Chico Victor. Foi um dia de muita euforia, para os
eleitores fanáticos, mas, para mim, foi uma festa como outra qualquer. À tarde,
quando tudo tinha já acabado, eu voltei pra
casa, e já de noite, nem mais pensei na eleição de Alto-Carangola. Mas, no
decorrer de alguns dias, correu a notícia, que Júlio Prestes tinha ganhado a
eleição, mas que não deixaram ele tomar posse. E logo começou a Revolução de
Trinta.
Depois da Revolução de
Trinta, o partido da oposição saiu vencedor. Era o partido de Getúlio Vargas e Arthur
Bernardes (Partido Bernardista). Júlio Prestes e seus companheiros foram
obrigados a deixar a Pátria, e viver na Europa. Com essa reviravolta de
política, o Capitão Chico Victor e seus filhos sofreram algumas humilhações,
pois os contrários, do outro partido, ficaram graúdos, porque eram da política de Arthur Bernardes, o qual
(juntamente com Getúlio Vargas) saiu vitorioso na Revolução de Trinta.
Mas, essa união dos dois
estadistas, o Arthur Bernardes e o Getúlio Vargas, não durou muito. Eles se desentenderam,
e Getúlio Vargas, sendo o mais esperto, ficou mandando sozinho. Getúlio Vargas,
sabendo que o outro partido era o mais forte, abraçou-se com ele e chutou o Arthur Bernardes, com todos os
seus eleitores.
O Brasil precisa ter Partido
de direita e Partido de esquerda, porque, quando um Partido está mandando, o
outro está fiscalizando. Mas, o melhor de tudo seria se ninguém precisasse
fiscalizar. Mas, isto não acontece, porque nem todos têm boa intenção. O que eu
acho pior, na política, é a vingança. Quando um partido está mandando, os
homens deveriam pensar que, um dia é da
caça, o outro, é do caçador. Se
hoje um Partido está por cima, amanhã poderá estar por baixo. Deviam saber
ganhar, e saber perder, e viver em harmonia uns com os outros. Seria tão bom se
assim fosse! Mesmo sabendo que a política é inevitável, eu a detesto. Como
brasileiro e patriótico, dou o meu voto, porque é o meu dever, mas, não tenho
candidato preferido.