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sexta-feira, 5 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MEU IRMÃO OLAVO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASAMENTO DE MEU IRMÃO OLAVO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 

Voltando à história de minha família Souza Costa. Em mil novecentos e vinte, o meu irmão mais velho, por nome Olavo de Souza Costa, casava-se com Luzia (uma neta de Antônio de Souza Moreira, o primo rico de meu avô paterno José Antônio de Souza Moreira).

 

Dona Francisca Lopes, mãe de Luzia, que tinha o apelido de dona Chiquinha, era viúva de Pedro de Souza Moreira. Foi uma bela festa o casamento de meu irmão Olavo, pois dona Chiquinha era fazendeira, e rica. Pois não havia muito tempo que Pedro de Souza Moreira tinha morrido e deixado uma bela Fazenda pra viúva e os filhos.

 

O casamento de meu irmão Olavo foi realizado na casa da noiva. O padre e o escrivão saíram do Divino de Carangola com uma comitiva de amigos de dona Chiquinha e de seus filhos em direção à fazenda de Dona Chiquinha.

 

Em casa de meu pai, antes da cerimônia do casamento, também houve uma festinha em homenagem aos noivos. Os convidados reuniram-se na casa de meu pai, que ofereceu um almoço para todos os que vieram, dali dos arredores, para fazer o acompanhamento dos noivos até a Fazenda de dona Chiquinha.

 

Recordo-me como foi o acompanhamento, apesar de minha pouca idade, pois na época eu tinha dez anos. A distância até à Fazenda de dona Chiquinha, não muito longe, era de apenas seis quilômetros para caminhar a pé.

 

Como meu irmão Olavo, já com vinte anos de idade, ainda trabalhava sob a responsabilidade de meu pai, meu pai comprou tudo o que foi preciso para o casamento.

 

Assim, nós descemos da Fazenda Cachoeira dos Pereiras, nosso lar, margeando o rio Carangola até à Fazenda de dona Chiquinha. Meu pai tinha comprado muito foguete, para festejar o casamento de seu filho mais velho, e entregou tudo ao tio Marcolino, que era fanático em soltar foguete. Nós ainda não tínhamos caminhado nem três quilômetros e tio Marcolino já estava soltando foguete. E, de lá da Fazenda de dona Chiquinha, correspondiam da mesma forma. Tio Marcolino soltava um foguete, de lá soltavam outro.

 

Abaixo da Fazenda de dona Chiquinha Lopes havia uma ponte para atravessar o rio Carangola. E passamos em frente à Fazenda, com o acompanhamento, uns gritando de um lado, outros gritando do outro lado do rio. E foguetes se encontrando no ar. Fizemos a volta pela ponte, e fomos, até chegar ao terreiro da Fazenda, com os foguetes se cruzando no ar. O padre e o escrivão já estavam esperando para a realização do casamento.

 

Após o término do casamento, os noivos receberam os cumprimentos dos convidados. Algumas mulheres e moças passavam sal na boca dos rapazes e moças e diziam: “– É pra ocê não aguar!” Era uma brincadeira de muita alegria.

 

Depois dessa brincadeira, foi servido o jantar. Uma grande mesa fincada no terreiro, com dez metros mais ou menos de comprimento por um metro e meio de largura. As serventes lotaram a mesa, de canto a canto, de saborosas comidas. E o povo, que não era pouca gente, comeu até se fartar.

 

Houve também o baile, que durou a noite toda, até o dia amanhecer. Dona Chiquinha Lopes já tinha três filhas e um filho casados, e, com o casamento de Luzia, ficaram sendo quatro filhas e um filho casados. Mas ainda tinha dois filhos, rapazes solteiros, e uma moça já na idade de se casar. E tinha também dois meninos de pouca idade, menores.

 

Com esta união, da família Souza Costa com a família Souza Moreira, formou-se uma grande consideração entre as duas famílias. Uma das minhas irmãs, por nome Malvina, começou um namoro com um dos filhos de dona Chiquinha, por nome Divino de Souza. Esse namoro de minha irmã, eu não sei o porquê, durou seis anos, até ser realizado o casamento. Mas, finalmente, realizou-se, pois Malvina já estava com dezoito anos e Divino com vinte e seis quando se casaram.

 

Meu pai fez uma grande festa para o casamento de Malvina com o Divino de Souza, tal e qual a que houve na Fazenda de dona Chiquinha Lopes, quando do casamento de Olavo com Luzia. Só que o casamento de Malvina não foi realizado em casa, mas sim na Igreja, em Divino de Carangola. O acompanhamento foi grandioso. Todos foram a cavalo.

 

Eu já estava com dezesseis anos de idade e tinha um cavalo muito bom, assim, fui um dos que acompanharam minha irmã Malvina até à Igreja. E fui eu que carreguei o baú com os vestimentos da noiva.

 

Naquela época, casava-se primeiramente no eclesiástico, depois é que se ia casar no civil. Saímos da Igreja e fomos para o Cartório, que era na Praça. Quando terminou o casamento no Cartório, fomos apanhar os animais para voltarmos para nossa casa, que, nesse dia, já estava repleta de gente, pois meu pai havia convidado toda a vizinhança, e todos compareceram em massa.

 

Meu cunhado Divino de Souza também tinha os seus convidados. A nossa casa encheu-se de gente, que não cabia dentro de casa. Na frente da casa tinha um grande terreiro, que ficou lotado de gente. Meu pai fez um gasto grande, de muita comida e doce. Todos comeram à vontade, e ainda sobrou tanto, principalmente, doce, que, quatro semanas depois, ainda tinha doce na dispensa de nossa casa, que até chegou a criar mofo dentro da lata.

 

Para todas as minhas irmãs que casaram, meu pai Zeca de Souza fez festa, mas, a festa do casamento de Malvina foi a maior de todas.

 

Os dois primeiros filhos de Malvina eram homens, e pela grande amizade entre mim e Divino de Souza, logo que nasceu o primeiro filho, pediram-me para eu escolher o nome do menino, o que fiz com o maior prazer. Logo veio o segundo e aconteceu a mesma coisa. Fui eu que escolhi o nome. E não ficou só nisso. Eu fui também o padrinho.

 

Depois que passamos a ser compadres, aumentou mais a nossa amizade. Dificilmente, eu passava duas semanas sem ir até a casa de compadre Divino e comadre Malvina. Aquela harmonia entre o casal deixava a todos sensibilizados. E, também, eles faziam tanto agrado a gente, que o domingo passava sem que se percebesse o dia passar, e, quando voltava para casa, já era noite.

 

Compadre Divino era também um bom barbeiro na roça. Tinha também uma grande freguesia de corte de cabelo. Era só aos sábados e domingos que ele cortava cabelo, e fazia também algumas barbas. Os outros cinco dias da semana, ele trabalhava na roça. Ele ainda tinha a herança deixada pelo pai Pedro de Souza Moreira, as terras aonde ele fazia as plantações de cereais.

 

A Fazenda, que Pedro de Souza Moreira deixou de herança para a esposa dona Chiquinha Lopes e os filhos, quase não tinha terreno baixo. Era um terreno de altos e baixos, sendo que embaixo passava o rio Carangola, e em cima era uma montanha. A Fazenda ficava abaixo da montanha e, para chegar até ao alto da montanha, tinha que subir muito. E, nessa montanha, havia uma solapa, espécie de um salão, que podia até esconder gente, se fosse preciso. Ali, debaixo da solapa, era seco, não nascia mato. E essa solapa na fazenda de dona Chiquinha foi o lugar onde aconteceu um caso interessante que quero contar.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASO DO FAZENDEIRO PERDULÁRIO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: O CASO DO FAZENDEIRO PERDULÁRIO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 


 
Eu não vou citar o nome de um fazendeiro que tinha três Fazendas de muitas rendas situadas, naquela época, no Município de Carangola; hoje em dia, pertencem ao Município de Divino, antigo Divino do Carangola.

 

O dito fazendeiro era perdulário, gastava muito dinheiro com mulheres, na verdade, não fazia caso de dinheiro. Mas, enquanto ele gastava na vaidade, a esposa dele, a sua mulher legítima, ia ajuntando o dinheiro de suas vendas de ovos e verduras e outros pequenos produtos da Fazenda e guardando o quanto podia guardar. Eram três Fazendas que o fazendeiro possuía, de muitas rendas, muitas lavouras de café, muitos gados bovinos, animais, porcos, galinhas. Era uma renda colosso. Mas, mesmo assim, ele estava endividado por duzentos contos de réis, com vários credores.

 

Um certo dia, esses credores se reuniram no terreiro da Fazenda principal, com aqueles carrinhos fordes, com aquelas capotas de lona, e encheram o terreiro de canto a canto.

 

Eu estou contando esse acontecimento, não que eu tivesse sido testemunha de todo o ocorrido, mas, eu fui vizinho de um irmão desse dito fazendeiro, e, aí, fiquei sabendo de tudo, do que aconteceu com aquele fazendeiro, dono de três Fazendas em Divino.

 

Contava-me o irmão desse fazendeiro perdulário que, quando ele viu que seria obrigado a entregar as Fazendas, que valiam muito mais que a dívida, ele botou as duas mãos na cabeça e começou a delirar, quase louco. Nesse último momento de loucura, a sua mulher legítima chegou na sala, diante dos cobradores, e disse: “– Aqui está o dinheiro! Paga esta gente e manda todos irem embora. Enquanto você jogava dinheiro fora, com mulheres e maus negócios, eu aqui guardava as minhas economias”.

 

Dizia o irmão desse fazendeiro que ele ficou muito envergonhado, mas aceitou o dinheiro que a mulher tinha feito com vendas de galinhas, ovos, leite, queijo, verduras e outras coisas mais, e prometeu à mulher que, daquele dia em diante, ele seria outro homem. E cumpriu a sua palavra. Deixou toda a vaidade e prosperou muito. E deixou uma grande riqueza para os filhos.
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ NO GOVERNO DO PRESIDENTE ARTHUR BERNARDES


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A VALORIZAÇÃO DO CAFÉ NO GOVERNO DO PRESIDENTE ARTHUR BERNARDES


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 

Na época do que vou contar, o Presidente da República era o senhor Arthur Bernardes. Ele valorizou o café, que antes valia oito mil réis, e passou para cinquenta mil réis, que foi a grande novidade de todos. Aqueles que não tinham café derrubavam matas e plantavam café. Outros capinavam os pastos para plantar café.

 

Era um movimento grande nas estradas: carros de bois que vinham de Santa Margarida, de São João do Manhuaçu, de São Francisco do Glória, e de outros lugares, com fileira de até quinze a vinte carros, todos cantarolando estrada a fora, aquela cantilena morosa própria dos carros de bois, até chegar em Carangola, aonde era vendido o café, para exportação em trem de ferro. No decorrer da viagem, durante quatro dias, os carreiros e candeeiros arranchavam-se em casebres de beira de estrada, ou até mesmo ao relento.

 

O transporte de café era feito também em lombo de burro, cada tropa com dez burros, fazendo fileira também de dez a quinze lotes de burros. Os tropeiros vinham gritando, batendo no couro dos animais, jogando tolete de pau naqueles burros da frente. Era um Deus nos acuda, porque a estrada era ruim e apertada e os tropeiros eram muito grosseiros e achavam que a estrada era só deles. E quando encontravam um carreiro, que não arredava o carro, para dar passagem pra eles, era aquela discussão.

 

E, às vezes, saíam até brigas de pancadaria, parecia que o povo havia enlouquecido com aquela alta do café. Mesmo com o preço alto do café, as outras mercadorias continuaram com os preços antigos, não houve alteração nos preços, tudo continuou no mesmo.

 

Eu me recordo de um dia em que, nós meninos, vínhamos da Escola para casa. Logo que saímos, fora do Arraial, começamos a encontrar carros de bois que vinham de Carangola, aonde os sitiantes foram vender o seu café. Eram muitos carros, enfileirados, todos vazios, com os candeeiros tocando os carros, e os carreiros vinham atrás do último carro, com as mãos cheias de notas, em dinheiro, contando o dinheiro, e andando a pé atrás do carro.

 

Nós éramos doze meninos que vinham da Escola, naquela brincadeira. De repente, um deu um grito: “– Olha lá uma nota!” A nota estava a uns dez metros de distância. Todos nós corremos pra pegar a nota, mas tinha um das pernas compridas, e que chegou primeiro, e apanhou a nota, e desabalou na carreira. O menino das pernas compridas correu pra valer, e todos nós corremos atrás dele, mas não apanhamos a nota, pois ele era muito veloz na carreira.

 

E ele chegou em casa do pai dele, e entrou correndo, e nós atrás querendo que o dinheiro fosse dividido. Mas, a mãe dele disse: “– O direito é do meu filho. O dinheiro tava perdido. Aquele que panhou primeiro é o dono do achado”. Mas, mesmo assim, ele passou muitos dias sem andar junto conosco, com medo de ser agredido.

 

Estava chegando o dia de compra de uniforme, para a festa de examinação, e a professora Dona Guiomar exigia todos uniformizados. O dinheiro achado deu para comprar o uniforme daquele aluno, sem precisar do dinheiro do pai. Foi um tempo bom para quem tinha lavoura de café.

 

Nos outros anos seguintes, o café baixou de preço, e foi a triste derrota de muitos fazendeiros. Aqueles que confiaram no café fizeram dívidas volumosas e não puderam pagá-las. E precisaram entregar as Fazendas, e passaram a viver de empregados, todos tocando lavoura à meia com os novos donos de suas fazendas. Alguns fazendeiros ainda salvaram suas fazendas, com a moratória de dez anos para pagarem, decreto-lei, dado por Getúlio Vargas, depois de mil novecentos e trinta.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CRIANÇAS BRIGANDO NO CAMINHO DA ESCOLA


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: CRIANÇAS BRIGANDO NO CAMINHO DA ESCOLA


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA






Voltando à família Souza Costa. Em mil novecentos e vinte, quando eu entrei para a Escola, éramos doze alunos. Nós caminhávamos a pé até a Escola de Dona Guiomar. De distância, alguns de meus colegas, até seis quilômetros. Na ida à Escola, nós íamos separados, mas, na volta, voltávamos reunidos, fazendo bagunça, por vezes, até, brigávamos uns contra outros.

 

Lembro-me de um dia em que eu briguei com um colega, porque ele dizia que nós éramos a tropa dele, porque ele era o mais forte e nós tínhamos que obedecer às ordens dele. Com esta ideia maligna, ele cortou uma vara de guaxima e dava com a vara em nossas costas, e gritava: “– Anda pra frente, meus burros!” Os outros colegas obedeceram as ordens dele, mas eu não quis aceitar a brincadeira. Ele dizia pra mim: “– Toinzim, ocê não é de nada!”, e me deu um empurrão. Eu me atraquei com ele justamente quando nós estávamos passando em frente a uma ribanceira, e em baixo passava um córrego d’água. Nós fomos rolando até cair dentro da água. Aí, acabou a briga e saímos todos molhados.

 

Mas, não ficou nisso só, pois, naquela época, as contas eram feitas em uma pedra escura [pedra = pequena lousa], quase quadrada, e, na luta, que nós rolamos até cair dentro d’água, a pedra ficou em pedaços dentro do embornal escolar. Porque nós carregávamos o material escolar em um embornal de pano, alceado no ombro.

 

Eu tinha meu irmão, mais velho do que eu quatro anos, o Eurico, mas ele não se envolveu em nossa briga, mas dizia que ia contar à professora Dona Guiomar e, também, quando chegasse em casa, ia contar ao pai que eu tinha brigado com o colega e tinha quebrado a pedra. E contou mesmo. Meu pai, o Zeca, deu-me uma coça com um cabresto de cavalo, e sempre me dizendo: “– Não é pelo valor da pedra que eu lhe bato, lhe castigo, é porque eu não quero que meus filhos briguem com ninguém. Eu sempre digo a vocês: quando virem uma briga, fujam de perto!”

 

Mas, minha mãe Antoninha não pensava assim. Quando meu pai me pegou pra bater, a minha mãe disse para meu pai: “– Ocê bateu no Antônio, mas o Eurico também precisa apanhar, porque a obrigação dele é ajudar o irmão mais novo e não deixar o irmão, sozinho, lutar com outro mais forte do que ele”. Mas meu pai não deu importância ao que minha mãe dizia, e ela, vendo que ele não ia bater no Eurico, disse: “– Quem vai bater no Eurico sou eu!” O meu irmão Eurico desabalou numa carreira daquelas, e ela correndo atrás dele. Por falta de sorte do Eurico, o nosso irmão mais velho, por nome Olavo, vinha descendo um morro, pra chegar em nossa casa, e minha mãe gritou: “– Pega o Eurico, Olavo!”, e ele pegou. Ela batia e dizia: “– Isto é pra quando ocê ver o seu irmão em qualquer dificuldade, ajudar. O seu dever é ajudar o irmão mais novo, e não deixar ele sozinho quando ele precisar do seu auxílio”. Agente brigava, mas não ficava de mal. Éramos uma família unida. 

domingo, 31 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: ALTO DE CARANGOLA NO TEMPO DA MATA VIRGEM


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: ALTO DE CARANGOLA NO TEMPO DA MATA VIRGEM


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 




Alto de Carangola, no tempo da mata virgem, tinha nome de Quilombo, por ser o lugar aonde os escravos se escondiam dentro das matas, por não quererem sujeitar-se ao trabalho forçado que o Sinhô exigia deles. Os escravos fugiam para o quilombo e formavam um verdadeiro exército e faziam muitos roubos. Eles viviam iguais aos índios, mas, mais conhecedores do que se passava nas Fazendas. Eles saiam de noite e roubavam o que fosse necessário para o sustento deles, trabalhar não era com eles.

 

Quando um escravo fugia da Fazenda, já se sabia que ele estava no quilombo. E, para chegar lá, quem se atrevia em ir com pouca gente?  Naquela época não existia policiamento para fazer prisão de fugitivo. Em lugar atrasado, longe do comércio, os próprios fazendeiros saíam com alguns de seus parentes e amigos, e com alguns empregados de confiança, e iam até ao Quilombo, e traziam os fugitivos. E botavam o fugitivo no tronco até castigar bem. Depois, tiravam do tronco, e o escravo era obrigado a trabalhar com a perna algemada na perna de outro escravo que não devia aquele castigo. Se fosse fazer uma capina de café em carreira, aquele escravo que não devia nada não saía da sua carreira, mas, o outro, o que devia o castigo, de pé em pé, ele tinha que atravessar, para conseguir levar a capina, até chegar ao final.

 

Alto de Carangola continuou, por muito tempo, com o nome de Quilombo. Mesmo quando eu era ainda bem menino, muitos falavam Quilombo, referindo-se ao Alto de Carangola. Ali, no Alto de Carangola, existiu um homem que virou bicho. Sobre o homem que virou bicho, o Egídio Fagundes, o caso foi muito comentado durante muitos anos, dizia-se sempre, referindo-se ao Egídio Fagundes e ao lugar do acontecido: o Bicho do Quilombo. E, hoje em dia, o lugar não é chamado nem de Quilombo, nem de Alto de Carangola, é conhecido com o nome de Arizona [*Orizânia].

sábado, 30 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: AS ANTIGAS FESTAS RELIGIOSAS EM SANTO ANTÔNIO DO ARROZAL


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: AS ANTIGAS FESTAS RELIGIOSAS EM SANTO ANTÔNIO DO ARROZAL


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 


 
Santo Antônio do Arrozal, que tinha também o nome de Choro quando eu estudava lá, tinha seis casas comerciais, de fazendas [panos, tecidos] e armarinhos, duas padarias, duas farmácias, quatro casas de bebidas e miudezas, ferraria, barbearia. Eram muitos turcos que comerciavam, negociavam até com toucinho em canoa. O senhor Luiz de Sales era o homem que comandava e organizava as festas, de mês de Maria, de Santo Antônio, de São Sebastião. De mês em mês, havia missa. O padre ia direto pra casa do senhor Luiz de Sales.

 

Em ocasiões de festas, o senhor Luiz de Sales mandava cartas pedindo leilão, e meninas, para coroar Nossa Senhora. A igreja era pequena, mas, em todos os dias do mês de maio, ninguém faltava com a presença na igreja, para assistir à reza, em homenagem a Nossa Senhora, ou Santo Antônio, ou São Sebastião.

 

E, no dia da festa, vinha a Banda de Música do senhor Raimundo Ramos, vinha do Município de Matipó, com todos os seus filhos, filhas e genros, todos músicos. Era uma família reunida. O senhor Raimundo era maestro, e tocava clarinete.

 

Do Divino do Carangola, vinham o padre e os fogueteiros, com aqueles enormes arrumados de foguetes-de-cauda bem compridas.

 

Meu pai e minha mãe eram os puxadores da reza, eles rezavam durante todo o mês, e minhas irmãs também ajudavam a fazer o coro. Eu acompanhava, mas não ajudava a rezar. Mas, como eu tocava violão e cantava samba, marcha, valsa, minha mãe, um dia, fez-me um convite, dizendo: “– Você canta bem, tem boa voz, hoje você vai-me ajudar a rezar”. Confesso que fiquei surpreso com aquele convite, pois eu gostava mesmo era de tocar em baile, fazer serenata, não tinha a menor tenção em cantar na igreja, mas, não queria desagradar minha mãe. Aí, eu ensaiei com minha mãe e minhas irmãs, e fomos pra igreja. Minha mãe ficou tão contente, que me entregou a direção de todos os cânticos.

 

Naquela época, sempre havia festa em dois arraiais: Choro e Indayá. Meu pai era contratado para rezar nesses dois arraiais. Sendo que Indayá ficava mais longe e, assim, precisava mudar-se pra lá, com a família, durante o tempo que fosse preciso, um mês, ou até dois. Às vezes, faziam duas festas seguidas.

 

Faz pouco tempo que estive em Minas Gerais [*ano da viagem de Antônio à terra natal: 1984], aonde fui nascido e criado. Divino melhorou bastante, mas, Indayá tá no mesmo. Mas, o arraial do Choro não tem mais aquelas casas, que tinha naquele tempo. Até a Igreja arrancaram. Só se vê casinhas sarapecadas, longe uma da outra, tudo diferente. Se agente não tivesse conhecimento de como era aquele lugar no passado, nunca podia pensar que aquele lugar já foi tão movimentado. Dia de sábado, então, era uma verdadeira festa de casamento, com acompanhamento, todos a cavalo, disputando corridas, vinha gente de Bom Jesus, da Samambaia, do Alto-Carangola, do Córrego dos Dornellas, e dos Henriques, e de todos os lados.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A ESCOLA DE DONA GUIOMAR NO ARRAIAL DO CHORO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: A ESCOLA DE DONA GUIOMAR NO ARRAIAL DO CHORO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 



Eu conheci o Arraial do Choro, cujo nome próprio é Santo Antônio do Arrozal, numa época muito promissora. Tinha uma Escola Pública Estadual, com uma professora de primeira classe por nome dona Guiomar Rodrigues de Amorim, casada com o senhor Caetano, que era o escrivão de paz. Ainda me lembro dos nomes dos filhos do casal, que já frequentavam as aulas. O mais velho dos irmãos, Wilson, depois, Marica, Joca e Lourdinha. Havia mais dois pequenos, que não frequentavam as aulas.

 

Dona Guiomar ensinava até o quinto ano. Depois, o aluno saía preparado para entrar no Ginásio. A casa da Escola era pequena, mal dava pra uns sessenta a oitenta alunos. Tinha duas fileiras de bancos. Na frente, os meninos mais atrasados, os mais adiantados ficavam na retaguarda. Ao lado, um quadro negro. Dona Guiomar ficava atrás de uma mesinha, sentada, e, em cima da mesinha, uma vara de marmelo e uma régua de uns trinta centímetros. Ela tanto batia com a vara, como batia com a régua. Pra ela, não tinha tamanho de aluno, o aluno podia estar com quinze ou dezesseis anos, se precisasse apanhar, ela batia, até fazer vergão. Na hora de estudar, era o maior silêncio, ninguém podia nem cochichar.

 

Lembro-me do primeiro dia em que eu entrei na Escola. Ela passou o a b c pra mim, para eu estudar em silêncio, eu comecei lendo baixo, mas, ela ouviu o meu cochicho e veio silenciosamente, até onde eu estava sentado, e deu de leve em minha cabeça com a vara de marmelo, e disse: “– Estuda, mais baixo!”

 

Além do primeiro dia de aula em que ela me corrigiu, eu me lembro de um outro dia, em que ela me deu umas varadas. Nesse dia, eu precisei mesmo de apanhar. Eu já estava bem adiantado, já fazendo conta de multiplicar, conta passada no quadro negro, bem adiantado mesmo. Não sei bem porque eu esquentei a cabeça, e não havia jeito de eu terminar a conta. O erro estava sobre um número, e eu não conseguia resolver a conta. Dona Guiomar estava me observando, e quis me ajudar, e disse: “– Antônio Costa, você está tomando muito café. O erro da conta está no número tal”. Ela dizia até o número, onde estava o erro, e eu, nem assim, entendia onde estava o erro. Aí, ela já veio com a vara na mão, e deu-me umas varadas, e dizendo: “– Deixa de tomar muito café, pois nem eu falando qual o número do erro, você não acerta?!”

 

Eu só tive três anos de Escola Pública. Fiquei só com o terceiro ano, porque dona Guiomar mudou-se para o Espírito Santo, e nunca mais tivemos notícia dela. Na véspera da mudança sair do Choro, com destino a Alegre, cidade do Espírito Santo, meu pai levou eu e um meu irmão, chamado Eurico, que também fora aluno de dona Guiomar, para que nós nos despedíssemos da professora e de sua família. Ela disse a meu pai: “– Senhor José, dos dois filhos do senhor, eu levo um sentimento”. E meu pai perguntou: “– Pode me dizer qual é o sentimento?” E ela respondeu: “– O sentimento que eu levo é de não deixar o Antônio muito adiantado, o sentimento que eu levo do Eurico, é de não poder tirar esta buta dele”. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: QUANDO MINHA MÃE ANTONINHA FICOU DOENTE


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: QUANDO MINHA MÃE ANTONINHA FICOU DOENTE


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 
 
 


 

Luiz de Sales era amigo de seus amigos. Recordo-me de uma vez que minha mãe estava muito mal, dois meses de cama, sofrendo uma dor no peito, que impedia a respiração. Parecia mesmo que ia morrer, pois já não se alimentava, só gemendo, dia e noite, Como meu pai era compadre e amigo de Luiz de Sales, recebeu dele, nesta ocasião, uma valiosa ajuda.  Meu pai ia passando, em frente à casa de Luiz de Sales, para ir à farmácia, para dar informação da doença de minha mãe ao farmacêutico, e, também, apanhar remédio para a dor de peito que ela sentia, aí, o senhor Luiz de Sales perguntou a meu pai como ia passando minha mãe. Meu pai respondeu que minha mãe não estava bem, e que ele ia até a farmácia, para dar informação ao farmacêutico que estava tratando de minha mãe.

 

Para nossa felicidade, naquele dia, estavam os políticos hospedados em casa do senhor Luiz de Sales, e, aí, o senhor Luiz disse a meu pai: “ – Compadre Zeca, volta pra sua casa e põe a comadre Antoninha no quarto da sala, que eu vou levar o Doutor Waldemar Soares para fazer um exame na comadre. Meu pai, naquele mesmo instante, voltou pra casa e fez conforme o senhor Luiz de Sales mandara.

 

Com menos de duas horas, o senhor Luiz de Sales e o doutor Waldemar Soares estavam em nossa casa, pois a distância não era longe. Quando eles chegaram em nossa casa, o doutor Waldemar examinou minha mãe e disse pra meu pai: “– Eu vou fazer uma experiência sobre este mal que está nesta doente. Se for água, eu curo ela aqui mesmo, mas, se for pus, o senhor terá que levar ela até Carangola. Aí, o doutor mandou minha mãe deitar-se de bruço, fincou uma agulha nas costas de minha mãe, e sugou um líquido amarelado. Não era pus. Ele disse a meu pai: “– Não é preciso levar ela a Carangola. Aqui mesmo, eu curo ela”. Meu pai disse ao doutor Waldemar, assim: “– Doutor, amanhã eu vou buscar o remédio”. Isto, já era quatro horas da tarde. E o doutor disse pra meu pai: “– O senhor vai é hoje, não pode deixar pra amanhã”.

 

Meu pai tinha um cavalo de confiança, que podia viajar dia e noite, e o cavalo não afrouxava. Meu pai montou ao cavalo às seis horas da tarde e viajou até Carangola. Antes do amanhecer, apanhou o remédio que o doutor tinha receitado. Entre meio-dia e uma hora, minha mãe já estava tomando o remédio. No decorrer de três dias, minha mãe já estava bem melhor, a dor já tinha desaparecido. Ela ainda estava bem fraca, mas, com o espaço de uns vinte dias, meu pai levou a informação de seu restabelecimento ao doutor Waldemar, que receitou fortificante pra ela tomar. E, ela ficou curada de um mal, que o doutor deu o nome de pleuris, água no pulmão.

 

O mais importante de tudo isto foi a cura de minha mãe, mas, houve um outro fato também importante. O meu pai só pagou os remédios, o doutor nada cobrou do exame e da viagem, porque era época de acontecimento político. Quem viu o Arraial do Choro, naquela época, e o vê hoje em dia abandonado, sente até vontade de chorar, assim como seu próprio nome, dado pelos fundadores do lugar: Choro.
 

quarta-feira, 27 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RECORDANDO AS CAMPANHAS POLÍTICAS DAQUELE TEMPO


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: RECORDANDO AS CAMPANHAS POLÍTICAS DAQUELE TEMPO


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA

 

 


Voltando à Fazenda Cachoeira dos Pereiras. Na década de 1910, quase no final, não existia automóvel, nem estrada. O transporte era feito em carro de boi e em lombo de burros. Até mesmo os homens daquela época faziam as campanhas políticas montados em animais. Até mesmo os doutores enfrentavam aquelas estradas poeiradas no tempo da seca. E, em tempos de chuvas, atoleiros, ladeiras escorregadias, subida de morros e descida, por estradas lamacentas, pontes esburacadas, enchentes, quando havia chuvas fortes, que, às vezes, interrompia a passagem.

 

Eu era bem criança, mas recordo bem daquele tempo em que os doutores faziam a campanha política montados em burros, cavalos, e bem prevenidos. Os animais com ferraduras pregadas nos cascos, que era para não escorregar. Os arreios bem compostos, com peitoral prateado, freio com cabeçada prateada, rabicho prateado, um coxinilho grande por cima do arreio, e, os homens bem vestidos, com trajes de viajante, chapéu de lebre, com aba grande, na cabeça, paletó de caxemira, com calça-culote de brim amarelo, um lenço no pescoço com duas pontas bem compridas descendo até ao peito, calçados com botina de pelica e perneira, que era para proteger a calça-culote. Era assim que os políticos faziam suas campanhas.

 

Da cidade de Carangola até ao Alto-Carangola devia ter de oito a dez quilômetros, mas, os políticos não iam diretamente, eles iam parando, tanto nos Arraiais como, também, em Fazendas, e, até, em casa de pobre eles passavam.

 

Nós morávamos perto da estrada onde eles passavam, e nós ficávamos apreciando eles em fileira, até na virada do morro. No pé do morro, morava tio Marcolino, que muito mal assinava o nome, mas era um homem fanático por política. Sabendo que eles iam passar por ali, tio Marcolino prevenia a sua casa humilde, e ficava esperando. Quando eles iam passando, o tio Marcolino convidava-os para chegar, pra tomar um café, e eles chegavam. Não era pouca gente não. Entre doutores, e empregados, e cabos-eleitorais, devia ter umas quinze a vinte pessoas. Como eles encontravam ali, naquela casa humilde, um bom lanche: café simples, café com leite, pão de sal, biscoito de polvilho, água fresca pra beber, uma bica d’água em correnteza, aonde eles lavavam as mãos, o rosto, era tão grande a satisfação, que eles faziam até discurso naquela casa, talvez, seja por força da cana, pois o tio Marcolino não ficava sem uma cachaça da boa.

 

Dali, eles seguiam para um Arraial pequeno, aonde tinha um turco muito rico, por nome Luiz de Sales, que hospedava todos os viajantes que tratavam de negócios. E, também, em época de eleições, iam pra casa de Luiz de Sales, que era uma casa muito grande, com muitos quartos de hóspedes. Tinha também, embaixo do assoalho da casa, dois quartos bem grandes, um de guardar milho em palha, e o outro era para os viajantes guardarem os arreios dos animais.

 

Dali, eles seguiam para o Alto-Carangola, onde tinha a Pensão de Dona Mariquinha Meireles. Mas, nesse intervalo, que eles ficavam no Arraial do Choro, que era conhecido também por Arraial de Santo Antônio do Arrozal, eles visitavam Fazendas, ali perto, como a do Capitão Francisco Victor da Silva, que era conhecido como Chico Victor, a Fazenda do José Vianna, outro grande fazendeiro do lugar, e outros mais. Era assim a política daquele tempo.  

terça-feira, 26 de março de 2013

A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: DEPOIS QUE VOVÓ CHIQUINHA MORREU


A HISTÓRIA DE ANTÔNIO: DEPOIS QUE VOVÓ CHIQUINHA MORREU


ANTÔNIO DE SOUSA COSTA
 

 
 
 


Depois que vovó Chiquinha morreu, vovô José Antônio viveu ainda doze anos. No início de sua viuvez, vovô quis ter a sua casa. Meu pai fez uma pequena casa, perto de nossa casa, e vovô passou a morar só. Mas, tia Floripes tinha muitos filhos e mandou o filho caçula, para fazer companhia a vovô. Isto foi pr’a pouco tempo. O menino não quis ficar com vovô e voltou pra casa de sua mãe. Vovô continuou morando sozinho em sua humilde casinha.

 

Mas não estava bem, vovô morando sozinho. A casa de meu pai tinha de sobra um quarto, e meu pai fez franqueza a vovô, para morar em nossa casa. E vovô aceitou, e viveu ainda mais doze anos, depois da morte de vovó. Durante esse tempo que vovô viveu em nossa casa, vovô não tinha obrigação nenhuma a cuidar. A vida de vovô era só comer, dormir, tocar viola e passear. Até a mula de vovô, nós, meninos, buscávamos no pasto. Vovô só tinha o trabalho de arriar a mula e sair pelas casas dos filhos e alguns netos casados, que todos recebiam vovô com muita satisfação.

 

Mas, quando chegava o tempo de planta de milho, vovô tinha que fazer a sua roça, ora na casa de um filho, ora na casa de outro. Vovô tinha sempre a ajuda dos netos no preparo da terra, no plantio do milho, na capina, e na colheita. Todos ajudavam vovô, só para ver ele feliz, alegre. O milho que colhia, ele vendia pra quem ele quisesse. Meu pai não exigia nada de meu avô. Vovô viveu até chegar à idade de oitenta e três anos com um espírito de jovem. No ano em que morreu, plantou a sua roça, só não pode colher, porque chegou o fim de sua vida na Terra. Sofreu uma intoxicação de urina e ele morreu num grande sofrimento.